A crise na Venezuela

É crítica a situação da Petróleos de Venezuela (PDVSA), estatal responsável por 45% das receitas tributárias e por 90% das exportações venezuelanas. Sem pagar fornecedores, a empresa não consegue manter a produção, deixando sem recursos a "revolução bolivariana" do coronel Hugo Chávez. O orçamento venezuelano para 2009 baseou-se num preço de US$ 60 o barril do petróleo, mas estima-se que o preço médio, este ano, fique ao redor de US$ 40 o barril (em 2008, o petróleo venezuelano, que sempre custa menos que os produtos leves, foi cotado, em média, a US$ 86,81 o barril, segundo a PDVSA e o Centro de Investigações Econômicas - Cieca). Com esse preço do barril, para que houvesse equilíbrio, evitando um rombo de US$ 10 bilhões, o orçamento teria de ser cortado em 18%. A alternativa seria tomar esse dinheiro no exterior ou mais do que dobrar a dívida interna. Tendo poucas alternativas para se financiar, o governo preferiu consumir vorazmente as suas reservas. O Fundo de Desenvolvimento Nacional, que chegou a dispor de US$ 57 bilhões, foi reduzido a apenas US$ 6 bilhões já no final de dezembro, o que levou Chávez a transferir US$ 12 bilhões das reservas internacionais para o fundo. Com isso, as reservas cambiais caíram para o patamar de US$ 28 bilhões. "Aparelhada" por Chávez, a PDVSA tornou-se exemplo de má gestão, camuflada até 2008 pelos preços do petróleo. Com a queda das cotações, já no último semestre a estatal começou a se endividar para honrar compromissos e financiar os projetos políticos do caudilho. Tomou emprestados US$ 3,5 bilhões de tradings japonesas e US$ 4 bilhões do governo chinês. A conta começou a ser cobrada neste ano. As operações da PDVSA dependem de prestadores de serviços estrangeiros, que não estão sendo pagos regularmente. A norte-americana Anadarko deixou a Venezuela no ano passado. Na semana passada, outra prestadora de serviços, a Helmerich & Payne, interrompeu as operações de 4 das 11 perfuradoras de poços terrestres 1 que tem em operação no país. A PDVSA só lhe pagou 1% do que deve e ela cogita de abandonar o país, informou o jornal Valor. Segundo Pietro Pitts, editor da publicação LatinPetroleum, a PDVSA vive seu pior momento desde a greve de fevereiro de 2003, quando demitiu 18 mil funcionários. Multinacionais como Exxon e Conoco Philips também cogitariam de deixar o País, só hesitando devido às enormes reservas provadas da Venezuela, de 172 bilhões de barris, e as perspectivas de exploração no longo prazo, ou seja, depois da era Chávez. Em fevereiro, 3.500 empregados de prestadoras de serviços que operam os terminais do Lago Maracaibo não receberam salários e entraram em greve, suspensa quando a PDVSA passou a pagá-los diretamente.Ocorre que a PDVSA, a mando de Chávez, deixou de ser uma empresa petrolífera para se transformar em holding que explora as mais diversas atividades, de supermercados a imobiliárias. Quando nadava em dólares, propiciou os recursos para Chávez adquirir emissões de títulos da Argentina, além de financiar as aventuras bolivarianas na Bolívia, na Nicarágua e em partes mais distantes do mundo. A PDVSA subsidia, ainda, a popularidade do caudilho, vendendo o litro de gasolina a 4 centavos de dólar, preço 27 vezes mais barato do que no Brasil. Um plano para o período 2006-2012, denominado Semente Petroleira, pretende elevar a produção para 5,8 milhões de barris/dia, tornando a Venezuela o quarto maior produtor mundial. A meta é vista como inatingível pelos analistas, pois a Venezuela, embora informe que produz 2,9 milhões de barris/dia, na verdade diminuiu a produção, da média diária de 2,35 milhões de barris, em 2008, para 2,18 milhões, em janeiro, e 2,10 milhões de barris, em fevereiro, segundo a Agência Internacional da Energia. A estatal enfrenta dificuldades até para conseguir equipamentos destinados a manter a produção, como informa o presidente da Sociedade Venezuela de Engenheiros do Petróleo, Fernando Sánchez.Sem os recursos do petróleo, Chávez terá de cortar seus projetos.

, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

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