A cúpula da distensão

O principal acontecimento da 5ª Cúpula das Américas, em Port of Spain, foi não acontecer o que se esperava - o confronto com os Estados Unidos para o qual o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, havia preparado os seus bolivarianos (os dirigentes da Bolívia, Equador, Nicarágua, Honduras e Dominica). O agudo faro político do caudilho deve tê-lo feito perceber, ainda quando arregimentava os aliados, que não haveria clima para ele antagonizar nem tampouco ofuscar o astro do evento, o presidente Barack Obama. Chávez há de ter decidido retroceder quando o cubano Raúl Castro, seu principal convidado para a reunião da Alba, a aliança bolivariana que promovia na véspera da conferência, declarou que estava pronto a discutir "tudo, tudo, tudo" com os Estados Unidos. A Casa Branca se disse "impressionada".Àquela altura, Obama já tinha tomado a dianteira ao ordenar o fim das restrições às viagens e remessas de fundos da comunidade cubano-americana para a ilha. A iniciativa visava a baixar a temperatura dos previsíveis protestos na Cúpula contra o embargo econômico a Cuba, preocupação que Obama manifestou ao brasileiro Lula - que, em todo o episódio, agiu como um elemento moderador. O encontro, a rigor, se definiu ao começar, na sexta-feira à noite. Primeiro, com o aperto de mãos entre Obama e Chávez. (Sintomaticamente, o serviço de imprensa do governo venezuelano tratou de distribuir a foto da cena antes mesmo das agências noticiosas.) Segundo, no discurso em que Obama pôs as suas cartas na mesa: um "novo começo" com Cuba e um convite à América Latina para "uma nova parceria".Chamando a atenção pela franqueza, ele apresentou os termos do "negócio": os Estados Unidos reconhecem que se ingeriam nos assuntos dos países vizinhos, e o Hemisfério deixa de culpá-los por seus problemas. Candidamente, Obama explicou que o povo americano precisava de um "reforço positivo" para apoiar a ajuda à América Latina. Foi o orador mais aplaudido da noite. Talvez por não terem sido avisados por seu mentor, o nicaraguense Daniel Ortega e o boliviano Evo Morales não pegaram o espírito da coisa. Um se estendeu por 50 soporíferos minutos em seus ataques às políticas dos Estados Unidos para a América Latina, comparando o embargo a Cuba ao Muro de Berlim. O outro, na reunião de Obama com os líderes sul-americanos, na manhã seguinte, implicou vagamente os EUA em um atentado que teria sido armado contra ele.Chávez como que deixou Evo Morales falando sozinho, ao anunciar o envio de um novo embaixador a Washington. Em setembro passado, quando Morales expulsou o representante americano em La Paz, sob a acusação de conspirar com a oposição, e retirou o diplomata boliviano dos EUA, Chávez o imitou em solidariedade. Agora, não só restabeleceu o relacionamento pleno entre os dois países, como disse não ter "a menor dúvida" de sua reaproximação e ainda considerou a Cúpula "extraordinária". De fato, foi - até pela engenhosa solução para a recusa da Venezuela e do bloco bolivariano em assinar a declaração final da conferência, entre outras alegações por não mencionar o embargo a Cuba. O documento acabou sendo subscrito apenas pelo primeiro-ministro do país anfitrião, Patrick Manning. Para ele, "a boa vontade (dos participantes) excedeu os sonhos mais ousados de cada um de nós".Ficou do encontro - além da convicção de que efetivamente não poderia ter sido melhor - a pergunta sobre os rumos da distensão entre Washington e Havana. Obama mandou a bola para o campo cubano ao cobrar de Castro um gesto de reciprocidade. "Não estou interessado em falar por falar", assinalou. A ilha, por exemplo, poderia baixar a onerosa taxa cobrada sobre as remessas dos cubano-americanos. Os EUA, por sua vez, poderiam se engajar em ações sobre drogas, migração e questões econômicas, como sugeriu Obama. Avanços nos aspectos menos contenciosos da agenda bilateral abririam caminho para os temas duros que, cedo ou tarde, terão de ser abordados, a começar da situação dos cerca de 200 presos políticos cubanos. Promissora é a decisão tácita de ambas as partes de dispensar intermediários. "Nenhum país dá procuração para outro agir em seu nome", comentou Lula para afastar, em boa hora, a ideia de que o Brasil poderia servir de ponte para Obama e Castro.

, O Estadao de S.Paulo

21 de abril de 2009 | 00h00

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