A decisão do Copom e a evolução do crédito

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) não ofereceu nenhuma surpresa e, fato raro, não levantou os protestos que uma alta da taxa Selic costuma desencadear. Como a retomada das pressões inflacionárias é reconhecida pela maioria dos agentes econômicos, eles estão conscientes de que algo tinha de ser feito.

, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2010 | 00h00

Mas, diante da urgência de brecar a inflação, a elevação da Selic será suficiente? ? uma vez que as autoridades monetárias repetem que a decisão leva cerca de seis meses para surtir seu pleno efeito? A propósito disso, os dados sobre as operações de crédito do sistema financeiro nos levam a algumas dúvidas quanto à eficácia da decisão do Copom, caso se confie apenas nela.

Ninguém pode negar que a atual alta de preços tem origem no superaquecimento da demanda, provocado, essencialmente, por um excesso de liquidez decorrente não apenas dos gastos do governo, mas também da oferta de crédito às pessoas físicas. Sabe-se que num ano eleitoral não se pode esperar austeridade do governo nos seus gastos e as autoridades monetárias não dispõem de meios para reduzir o impacto do excesso de crédito.

Segundo os dados divulgados ontem pelo Banco Central (BC), as operações de crédito em favor das pessoas físicas aumentaram no mês de março, em relação ao mês anterior, em 2,0%, sendo 2,5% só para o crédito referencial para taxa de juros, e em 12 meses aumentaram 18,6%, sendo 20,8% para o crédito referencial para taxa de juros. Ora, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego relativa a seis regiões metropolitanas, do IBGE, o rendimento real cresceu 0,4% em março, sobre fevereiro, e 1,5% em 12 meses. Percebe-se uma anomalia entre o crescimento do crédito e da renda, mesmo levando em conta a inflação e o crescimento do PIB. A redução da taxa de juros nesse período só está contribuindo para aumentar a discrepância da evolução entre crédito e renda.

Caberia ao Conselho Monetário Nacional (CMN) tomar medidas para conter, na fase atual, o crédito e não deixar apenas o BC recorrer ao instrumento do qual dispõe para isso, que é a elevação da taxa Selic.

O CMN é composto por três membros ? o ministro da Fazenda, o do Planejamento e o presidente do BC. Sabe-se que os ministros não aprovam a política do BC e não mostram a coragem de aprovar medidas de contenção do crédito, como, por exemplo, aumentar o compulsório sobre os depósitos. Com isso, têm de assumir as consequências nem sempre boas da elevação da taxa Selic.

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