A defasagem do emprego

Desde abril o ritmo das demissões vem sendo mais brando que o dos meses correspondentes de 2015. Mas a recuperação ainda vai depender muito do governo.

O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2016 | 03h00

Os brasileiros terão um bom motivo para se alegrar, se o próximo balanço da economia apontar crescimento zero no terceiro trimestre, mas isso ainda parece pouco provável. Por todos os dados conhecidos até agora, haverá uma enorme surpresa se as contas nacionais apontarem, no período de julho a setembro, uma estabilização ou pequeno crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Mas, se a surpresa ocorrer, o lado mais feio do quadro, já se sabe, terá continuado muito sombrio. Doze milhões de pessoas, ou 11,8% da força de trabalho, ficaram desempregadas nesse período. Na comparação com o segundo trimestre, quando o desemprego estava em 11,3%, houve um aumento de 437 mil pessoas no contingente desocupado. No confronto com o cenário observado um ano antes, a diferença foi de 3 milhões de pessoas a mais. Naquela época, os desempregados eram 8,9% da população ativa.

Esses números são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, elaborada mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento é realizado em 3.464 municípios, cobre tanto o emprego formal como o informal e sempre se refere a um trimestre móvel, isto é, com adição de um mês numa ponta e subtração de um mês na outra.

Os únicos dados positivos – ou menos negativos – do último relatório referem-se aos ganhos dos trabalhadores ocupados. O rendimento médio real habitualmente recebido em todos os trabalhos aumentou 0,9% do segundo para o terceiro trimestres, mas foi 2,1% inferior ao de um ano antes. A massa de rendimento real ficou estável de um trimestre para outro, mas foi 2,1% menor que a de igual período de 2015.

Isso já representaria uma importante redução da capacidade de consumo no intervalo de um ano, mas a história é de fato um pouco pior, porque a população ocupada (89,8 milhões de pessoas) foi 1,1% menor que a do trimestre de abril a junho deste ano. Só um excepcional otimismo permitiria imaginar uma reativação significativa do consumo, nos próximos meses, com tantas famílias sufocadas pelo desemprego e pela contração de renda.

Além disso, é preciso lembrar uma informação confirmada pela experiência internacional. A criação de empregos acompanha com atraso o aumento da atividade econômica, na primeira fase depois de uma recessão. As empresas conseguem produzir mais, nos primeiros tempos, com maior produtividade do pessoal ainda empregado e com uso mais intenso de máquinas e equipamentos. Os fatores já disponíveis – mão de obra e capital fixo – ganham dinamismo depois de um período mais ou menos longo de baixa utilização.

Só na fase seguinte, depois de um crescimento sensível da demanda, as companhias precisarão contratar trabalhadores e investir em máquinas e equipamentos e, talvez, em novas instalações. No Brasil, essa etapa ainda parece distante.

Se houver algum crescimento do PIB no próximo ano, será provavelmente muito moderado. As projeções mais otimistas indicam um avanço inferior a 2%. As oportunidades de emprego surgirão lentamente. O escasso poder de consumo das famílias, mesmo daquelas livres do desemprego, ainda deverá representar uma trava à reativação dos negócios.

Mas ainda é possível encontrar algum dado menos negativo nas estatísticas. De acordo com os números de outra fonte, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), elaborado pelo Ministério do Trabalho, os contratos com carteira assinada tendem à estabilização, embora o quadro ainda possa piorar durante algum tempo. Em setembro, foram eliminados 39,28 mil postos formais (diferença entre demissões e admissões). Em setembro do ano passado, o resultado líquido havia sido muito mais feio, com eliminação de 95,6 mil vagas.

Desde abril o ritmo das demissões vem sendo mais brando que o dos meses correspondentes de 2015. Mas a recuperação ainda vai depender muito do governo. Se avançar no ajuste de suas contas, alimentará a confiança – indispensável – de empresários e investidores.

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