A defesa do euro

Os governos da União Europeia decidiram, enfim, cuidar abertamente de seu problema central ? a crise fiscal e financeira da zona do euro e não apenas da Grécia. O pacote de 750 bilhões anunciado no domingo à noite foi bem recebido nos mercados de todo o mundo, mas o entusiasmo inicial foi atenuado, em poucas horas, por análises mais prudentes e realistas. Na melhor hipótese, as novas somas anunciadas pelos governos e pelo FMI servirão para limitar as consequências do problema grego. Além disso, a intervenção de bancos centrais da zona do euro, comprando títulos públicos de Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda e Itália, contribuirá para dar alguma sustentação aos Tesouros desses países. Essa iniciativa resultou de um plano elaborado pelo Banco Central Europeu (BCE) e contribuirá para uma redução dos juros pagos pelos governos daqueles países.

, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2010 | 00h00

As ações de bancos puxaram a alta das cotações nas bolsas de valores europeias nessa segunda-feira. Inverteu-se o movimento observado na semana passada, quando o temor de um calote grego ? ou mesmo de um calote mais amplo desencadeado pelo Tesouro da Grécia ? desvalorizou os papéis do setor financeiro. Ao assumir o compromisso de uma ação muito mais ampla que o socorro ao governo grego, as autoridades europeias tentam proteger não só outras economias em situação fiscal precária, mas também o sistema bancário. Os bancos não seriam apenas vítimas do calote, mas canais de transmissão da crise para vários pontos da Europa e, talvez, de outros continentes. Não há como socorrer os governos sem resgatar também os seus principais credores. Os bancos ? pelo menos os grandes ? continuam sendo ajudados não só quando especulam irresponsavelmente, mas também quando seus maiores clientes, os governos, gastam mais do que podem e se endividam além da conta.

O resgate combinado pelos governos europeus e pelo FMI poderá atenuar ou, na melhor hipótese, eliminar o risco imediato de uma grande crise fiscal e financeira. Mas não produzirá nenhum resultado de longo prazo.

Os números impressionam, à primeira vista. Os europeus decidiram ampliar os objetivos e a dotação ? de 60 bilhões para 500 bilhões ? de um fundo instituído originalmente para ajudar países de fora da zona do euro. O FMI, depois de aprovar uma contribuição de 30 bilhões para o socorro à Grécia, aceitou contribuir com 250 bilhões para a nova caixinha de emergência.

Mas ninguém deve esperar dessa mobilização mais que efeitos de alcance limitado, como advertiu Marek Belka, diretor do Departamento de Europa do FMI. A decisão anunciada no domingo à noite "dá um pouco de alívio", comentou, mas não é uma solução de longo prazo. Operações de socorro podem ajudar os governos a vencer dificuldades imediatas, para alívio das autoridades econômicas de todo o mundo e também, é claro, dos bancos, mas não servem como vacinas contra a irresponsabilidade fiscal nem impõem mais disciplina aos bancos.

Os padrões do setor financeiro só atingirão níveis satisfatórios com a implantação de regras mais severas de segurança, incluídas novas formas de proteção ao consumidor. Um projeto amplo de reforma está sendo estudado pelo Comitê de Estabilidade Financeira, formado por dirigentes de bancos centrais do G- 20. O trabalho é realizado em cooperação com o FMI e o Banco de Compensações Internacionais. Em alguns países ? o caso mais notório é o dos EUA ? os governos já vêm tentando a implantação de programas nacionais de reforma. No Brasil, a autoridade monetária continua empenhada em elevar os padrões de segurança, já superiores, há vários anos, aos encontrados na maior parte das economias mais desenvolvidas.

Quanto à disciplina fiscal, exigirá, no caso da União Europeia, a adoção de novos e mais estritos mecanismos de controle coletivo. Os mecanismos atuais não impediram uma perigosa expansão dos déficits e do endividamento dos Tesouros. A crise grega é especialmente instrutiva por ser uma síntese dos dois problemas: nesse caso a irresponsabilidade governamental e a ocultação da desastrosa situação das contas públicas foram facilitadas pela cooperação bancária.

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