A derrota do casal Kirchner

Foi a soberba, em última análise, a causa de fundo da fragorosa derrota sofrida pela presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner, e o seu marido Néstor, que a antecedeu na Casa Rosada, nas eleições legislativas para o preenchimento de metade das cadeiras da Câmara dos Deputados e de 1/3 do Senado. Começando pelo fim, a soberba - sob a forma de crença na própria popularidade que contrariava todas as evidências - levou o ex-presidente a encabeçar a chapa governista para a Câmara na Província de Buenos Aires, o maior distrito eleitoral do país. Com isso, ele transformou o que poderia ser apenas uma disputa rotineira numa consulta plebiscitária sobre a era Kirchner e numa prévia da sucessão presidencial de 2011. A presidente fez o primeiro movimento nesse sentido quando decidiu antecipar em quatro meses o pleito marcado para outubro. (O calendário eleitoral argentino parece flutuar de acordo com a conjuntura.) Guiada pela soberba, Cristina subestimou a fadiga real e presente da maioria dos concidadãos com o seu governo, imaginando que o gambito não só privaria as oposições do tempo necessário para se organizar, como ainda a pouparia de um encontro com o eleitorado em meio a uma recessão já aprofundada. Deu no que deu. Uma Argentina cética e desiludida, antes inquieta com a gripe suína do que com um Parlamento a se instalar só em dezembro e deliberar só a partir de março de 2010, respondeu com a menor taxa de comparecimento às urnas desde 2001, da ordem de 60%. Mas os votantes que não se abstiveram deixaram claro por que: deram às oposições 7 em cada 10 votos validados. Cristina tentou tapar o sol com peneira, com o risível argumento de que a sua coligação Frente pela Vitória recebeu 31% dos sufrágios, ante os 29% obtidos pelo bloco oposicionista Acordo Cívico e Social, o segundo mais votado. A verdade crua, porém, é que pela primeira vez a facção peronista no poder deixou de ter maioria no Legislativo. Na Câmara, 16 cadeiras mudaram de lado, dando às oposições e aos chamados "neutros" um total de 151 lugares, ante 99 da aliança comandada pelo Partido Justicialista. No Senado, as 2 perdas governistas e os 14 ganhos dos partidos de oposição e dos neutros resultaram em um empate na casa de 36. Os Kirchners foram batidos na capital, na província portenha (onde a lista do ex-presidente não conquistou nem sequer 1/3 dos votos), em Córdoba, Santa Fé, Mendoza e ainda em Santa Cruz, feudo político da família desde 1991. Doze anos depois, quando Néstor se elegeu na esteira do colapso econômico, moral e político sofrido pelo país na virada do século, achou que poderia impunemente fazer da pior maneira o que a situação impunha - e reestruturou a dívida nacional sem deixar ao menos uma fresta aberta para uma nova renegociação mais adiante. O maior calote soberano da história foi também a primeira marca da truculência que os argentinos se acostumariam a associar ao estilo Kirchner. No início, a sorte esteve de seu lado: o país se estabilizou e as suas exportações para um mundo aquecido garantiram seis anos de robusto crescimento econômico (acima de 8% em média). Em 2007, elegeu Cristina sua sucessora com 45% dos votos e assumiu para todos os efeitos a gestão econômica do novo governo. Com a soberba correndo solta, tudo lhes parecia permissível: o autoritarismo, a gastança sem lastro, os subsídios populistas, a promoção do capitalismo de compadrio, a aposta cega nos petrodólares de Hugo Chávez, a corrupção florescente, a hostilidade à imprensa, a manipulação deslavada dos indicadores econômicos nacionais, acobertando a inflação e o desemprego em alta e o produto em baixa - e o monumental equívoco de elevar a níveis extorsivos os impostos sobre a atividade rural. Supondo lidar ainda com os arcaicos e desprezados dueños de las vacas, Cristina foi atropelada pela mobilização de um setor moderno e apoiado pelas classes médias urbanas. Perdeu a queda de braço e mergulhou em queda livre.Ao despencar, fraturou o peronismo, deixando o Partido Justicialista numa crise endógena que a mera renúncia de Néstor Kirchner à sua presidência nem de longe aplacará. A correlação interna de forças resultante da eleição de domingo possivelmente prenunciará o ocaso do kirchnerismo, obrigando a presidente se arrastar até o fim do mandato - se é que não seja abreviado.

, O Estadao de S.Paulo

01 de julho de 2009 | 00h00

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