A derrubada da Mata Atlântica

Não é só na Amazônia que o desmatamento voltou a aumentar, o que acontece, segundo se desculpa o Ibama, por causa das greves dos fiscais do órgão. O que sobrou da Mata Atlântica está também sob séria ameaça em vários pontos do País, particularmente no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Dados da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial revelam que, entre 2008 e 2010, a Mata Atlântica perdeu 20.887 hectares, equivalentes a 130 Parques do Ibirapuera.

, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2010 | 00h00

Na área do bioma sob proteção ambiental, figura de longe como campeão do desmate o Estado de Minas Gerais, com 12.524 hectares. Seguem-se Paraná (2.899 hectares), Santa Catarina (2.149) e Rio Grande do Sul (1.897). A situação é menos grave em São Paulo, com 794 hectares destruídos, mas aumenta a preocupação com as investidas das motosserras no Vale do Ribeira e região sul.

Minas apresenta um contraste. É o Estado com a maior extensão de florestas plantadas, mas, ao mesmo tempo, é aquele que hoje detém a maior área remanescente, não contínua, da Mata Atlântica. Com a demanda em crescimento para a produção de ferro-gusa, que usa carvão vegetal, as florestas cultivadas para esse fim não estão dando conta das encomendas. Atraídos por bons preços, os guseiros partem para as matas existentes fora do cerrado, já praticamente devastado.

Em consequência, municípios como Ponto dos Volantes e Jequitinhonha, com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,600, bem abaixo da média do Brasil (0,813), se tornaram centros de produção carvoeira. Somados, os dois municípios, à margem da BR-116, desmataram nada menos que 5.199 hectares. O Vale do Jequitinhonha é uma região pobre, mas já fez muita gente enriquecer com a mineração de ouro e pedras preciosas. Nas décadas de 1950 e 1960, a região possuía um vasto estoque de pés de jacarandá, que foram cortados para venda nos mercados interno e externo. Sobraram as matas nativas sem madeiras de lei, que também vêm sendo devastadas. Dali partem caminhões carregados de carvão para as fábricas de gusa.

Ainda que não estejam em greve, fiscais do Ibama não são vistos por ali. A fiscalização é exercida pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF) de Minas, cuja ação é manifestamente ineficaz. O IEF, alega-se, não tem interesse em deter o corte da mata nativa, uma vez que cobra uma "taxa de reposição" quando detecta o desmate. Assim, a redução progressiva do bioma torna-se fonte de arrecadação de impostos.

Uma nova ameaça surge com o projeto, já aprovado em primeiro turno pela Assembleia Legislativa de Minas, que retira da área de proteção ambiental as matas secas, que só voltam a florescer na estação das chuvas. Por considerar o projeto inconstitucional, a Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente espera que o governador Antônio Anastasia o vete. Com veto ou sem veto, será difícil conter o apetite por carvão vegetal dos guseiros e das siderúrgicas em expansão. Mesmo que for cumprida a promessa do Instituto Aço Brasil, de que 100% do carvão vegetal usado para a produção de aço no País será proveniente de florestas plantadas a partir de 2012, é possível que até lá não exista mais mata nativa no Vale do Jequitinhonha.

É hora de o Ministério do Meio Ambiente intervir, em articulação com outras Pastas. O Brasil comprometeu-se na Convenção sobre Diversidade Biológica a zerar o desmatamento na Mata Atlântica até este ano. Não vai cumprir a meta. Mas, pelo menos, deve agir para salvar o que pode ser salvo. Há muitas áreas do cerrado que estão deterioradas e podem servir para a plantação de florestas para a produção de carvão vegetal. A curto prazo, a alternativa é importar carvão mineral.

A credibilidade internacional do Brasil, no que diz respeito ao meio ambiente, será ainda mais abalada se nada for feito. Quem acreditará que o governo pode defender a integridade básica da floresta amazônica, se ele não é capaz de preservar as matas mais próximas das regiões mais desenvolvidas do País?

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