A desativação do Minhocão

A aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Municipal de projeto de lei que desativa o Minhocão, seguindo diretriz estabelecida pelo Plano Diretor, abre uma discussão que precisa ser feita com a maior seriedade possível, sem concessões à demagogia. Tendo em vista a sua importância para o sistema viário da cidade, que só cresceu com o passar do tempo, não haverá solução fácil para o problema que se criará com o fim do Minhocão, se o projeto se transformar em lei.

O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2014 | 02h05

Para complicar a situação, há pouco tempo para esse debate, porque aquele projeto estará na pauta, juntamente com outros de iniciativa do Executivo e de vereadores, que a Câmara quer votar até o fim do ano. E a probabilidade de que a proposta seja aprovada é grande, pois ela conta com o apoio de vereadores de vários partidos - entre seus entusiastas estão Nabil Bonduki (PT) e Police Neto (PSD), por exemplo -, sem falar nas associações de moradores da região e de ambientalistas e urbanistas.

Segundo Police Neto, é preciso convocar a sociedade e os governos estadual e federal para a discussão da proposta. A inclusão desses dois níveis de governo na questão é correta, mas ela mostra o tamanho do problema que a Câmara está em vias de criar, e que a cidade sozinha não tem, de fato, condições de resolver. Isso deveria, porém, ter sido feito muito antes. Agora, significa colocar o Estado e a União diante de um fato consumado, com sabor de chantagem - ou ajudam ou serão corresponsáveis pelas consequências negativas da medida.

Em primeiro lugar, será preciso saber o que fazer com o Minhocão se sua desativação se der no prazo de quatro anos fixado pelo projeto. Desmontar essa enorme e pesada estrutura, tornada inútil, é uma operação muito cara, complicada e demorada. Vale a pena? Se não, resta a possibilidade de transformá-la numa área de lazer ajardinada, como já foi feito em caso semelhante - não idêntico - em Nova York. Área que até já tem nome - Parque do Minhocão. Dessa vez, deve-se perguntar se vale a pena tudo isso para deixar intocada essa estrutura, ainda que com tal destinação.

Em segundo lugar, em qualquer uma daquelas opções, é preciso - como alertam o prefeito Fernando Haddad e técnicos de seu governo e como é evidente mesmo para leigos razoavelmente informados - encontrar uma alternativa para o Minhocão, que faz a ligação entre as regiões oeste e leste da cidade. Ele tem um fluxo médio de 6 mil veículos por hora em cada sentido, igual ao da Avenida 23 de Maio, o que basta para dar uma ideia do papel que desempenha no sistema viário.

Uma opção, segundo Police Neto, é a Linha 6 - Laranja do Metrô, em construção, que cruzará a Marginal do Tietê, passará pela Barra Funda e atenderá a região em que se situam várias universidades na zona oeste. Outra é o Expresso Norte, que o governo do Estado espera concluir até 2020 e que vai passar pela região central, atendendo a área hoje servida pelo Minhocão, chegando até Perus. Supondo-se que uma ou outra dessas opções possa mesmo ser alternativa para o Minhocão - o que resta demonstrar -, a Câmara e a Prefeitura da capital estarão simplesmente, e sem um entendimento prévio, transferindo para o governo estadual o problema que criaram. Chova ou faça sol, ele terá então de cumprir o prazo de entrega daquelas obras, sob pena de deixar os paulistanos presos num infernal congestionamento de trânsito.

E tem mais. Segundo Police Neto, será preciso impedir a especulação imobiliária na região do Minhocão, que se seguirá à sua desativação, pois quem viveu ali "40 anos não pode ser penalizado com aluguéis mais caros na hora em que tudo vai ficar bom". Como fazer isso ele não explicou.

O Minhocão é mesmo uma desagradável herança urbanística, uma obra que enfeia a cidade. Mas ele se incorporou de tal forma à sua vida, tornando-se um elemento essencial de seu sistema viário, que sua desativação, a essa altura, não pode ser tratada com a ligeireza - que beira a irresponsabilidade - exibida pelos vereadores. Ainda há tempo para retomar a discussão nas bases técnicas que a questão exige. Em breve saberemos se o vereadores tomarão juízo.

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Editorial Estadão Minhocão

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