A desmoralização vinda da corrupção

É profundamente desanimador comprovar pelas rádios, pelas televisões e pelos jornais que a nossa democracia, conquistada após tanto sofrimento, vem sendo conspurcada, violentada, humilhada por um grupo de pessoas que chegou ao poder e age de forma absolutamente imoral, como se pretendesse destruir nossos valores e abalar nossas instituições. Isso não se dá por incompetência e inabilidade dos administradores públicos, mas por ação consciente e programada do partido político que defende o crescimento do Estado, nas mãos dele, o que certamente resultaria no estrangulamento da iniciativa privada e da imprensa, como vemos ocorrer na Venezuela, na Argentina e no Equador.

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2014 | 02h04

Se incompetência e inabilidade constituíssem crime, a penitenciária de Papuda estaria bem mais cheia e José Dirceu e outros do mensalão teriam de dividir espaço com os iguais da Petrobrás. Mas furto de dinheiro público e corrupção, ativa e passiva, são crimes, de tal forma que é só uma questão de tempo: essa turminha sem escrúpulos vai viver o mesmo tormento e ter o mesmo destino dos iguais que fizeram o mensalão.

A sociedade brasileira, e cada um de nós, tem o direito de acompanhar a punição desses delitos, que devem ser investigados em profundidade, doa a quem doer. A loucura incontida de avançar sobre dinheiro público é traço marcante do grupo que conquistou o poder 12 anos atrás. Sob a alegação hipócrita de ser necessário implantar um projeto nacional em favor dos mais pobres, a ação de seus integrantes passou a ter como alvo principal os órgãos e empresas estatais onde rola muito dinheiro.

Se tivessem sido indicadas pessoas competentes e honestas para esses cargos, certamente não seria possível cobrar as comissões das empreiteiras e enriquecer o grupo. Essa foi a razão de terem sido nomeadas pessoas da pior espécie, essas que hoje ocupam as páginas políticas, quando, em verdade, deveriam estar nas páginas policiais, porque se tornou notória a ocorrência dos crimes praticados.

Nossas leis punem tais crimes, mas, em razão da necessidade do devido processo legal, do contraditório e de ampla defesa, esses péssimos brasileiros talvez consigam empurrar o desfecho de decisão condenadora por alguns anos.

Depoimentos feitos perante juiz federal demonstraram que o detido ex-diretor da Petrobrás concordou em devolver milhões de dólares que escondia no exterior. Por essa conduta se torna fácil imaginar como devem estar recheados os bolsos dos demais que receberam a propina. O volume de beneficiados pela farra naquela estatal é muito maior e envolve, como tantas vezes divulgado, elementos da cúpula do Partido dos Trabalhadores.

O assunto é grave e não pode ser esquecido. Se não se concretizar a necessária punição, prevista em lei, restará a ideia da impunidade e do prevalecimento da esperteza.

O incrível é que, entre tantos beneficiados, somente dois estejam na cadeia. É também incrível que as empresas contratadas pela Petrobrás, aquelas que pagaram os porcentuais destinados aos partidos políticos, continuem imunes e na cômoda posição de simplesmente alegar nada terem feito de errado. Seria o caso de pôr em dúvida o requisito da moralidade, necessário para quem se dispõe a realizar obras públicas, e bloquear o seu acesso a novas contratações.

Essas mesmas empresas a toda hora são acusadas do crime de corrupção, circunstância que torna duvidosa a alegação que fazem de inocência. Serão mentirosos os depoimentos tomados pelo juiz federal que interrogou os dois presos? Será tudo invenção dos opositores políticos, esses que "tentam dar um golpe", conforme acusa a presidente Dilma Rousseff?

Essa senhora, prisioneira da notória impossibilidade de bem governar, a toda hora admite que houve, sim, a assustadora presença do avanço criminoso no dinheiro público. Sim, ela repete o tempo todo que nunca ninguém, como ela, combateu tanto a corrupção no País. Pretende com isso um benefício eleitoral. Mas a cada dia se torna mais claro que esse combate, se existe, alcança fatos havidos em seu governo, debaixo de seu nariz, conforme já havia ocorrido anteriormente com o presidente Lula (aquele que no caso do mensalão não viu nada, não sabia de nada).

Se de fato a candidata pretendesse acabar com a corrupção, o primeiro passo seria afastar-se das ratazanas políticas da pior qualidade que indicaram os afilhados para as estatais e os órgãos públicos. Essa gente circula no seu gabinete desde os tempos de seu antecessor e conselheiro, Lula. Sua presença na barra da saia da presidente leva à inferência de que ela participou conscientemente dos ajustes e age com hipocrisia quando afirma estar combatendo a corrupção.

Sempre é bom lembrar que são aliados de Dilma e estão ao seu lado pessoas de conduta conhecida, como José Sarney, sua filha Roseana Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor de Mello e muitos outros que certamente não irão para o céu. O próprio Paulo Maluf, tão combatido e desmoralizado, é hoje aliado de Dilma e a defende no horário eleitoral, pedindo votos para ela (pudera, recebeu a visita de Lula em sua casa...!).

No lugar de José Sarney, que alegou estar aposentado, ficou outro de igual calibre: Renan Calheiros, de biografia já conhecida. Sempre são ouvidas referências à sua conduta, tão conhecida, que desaconselharia sua presença no Senado, ainda mais como presidente. Sucede que ele cumpre, obedientemente, tudo o que lhe ordena o Palácio do Planalto - e, em contrapartida, nomeia quem ele quer para os cargos em que corre mais dinheiro.

É a velha oração de São Francisco de Assis - é dando que se recebe - atuando exatamente ao contrário do que pretendia o santo, no seu linguajar tão puro.

*Aloísio de Toledo César é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: aloisio.parana@gmail.com 

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