A diplomacia do gol contra

O presidente Lula fez anteontem o seu último discurso, como chefe de Estado, numa festa de formatura de novos diplomatas brasileiros. Não se sabe o que dizia o texto que lhe prepararam para a ocasião, afinal preterido por um improviso de meia hora, embora decerto contivesse uma exuberante louvação do que seriam os feitos da diplomacia lulista.

, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2010 | 00h00

No entanto, mesmo levando em conta os padrões de decoro político do atual governo, é improvável que a versão escrita abrigasse a pequenez para a qual o presidente apelou no seu solo, ao comparar a sua política externa com a dos anos Fernando Henrique, uma época em que os brasileiros teriam sido induzidos a ter "complexo de vira-latas", na antiga expressão do cronista Nelson Rodrigues.

A mesquinharia consistiu em mencionar ? a pretexto de expor a alegada subserviência do País ? um episódio de 2002, quando o então chanceler Celso Lafer, em missão oficial aos Estados Unidos, tirou os sapatos ao passar pelos controles de segurança dos aeroportos do país, como era exigido. Sem citá-lo pelo nome, nem o do presidente a quem sucedeu, Lula repetiu a sua tirada de setembro de 2003, segundo a qual, "quando inventaram a história de tirar o sapato, disse para o Celso (Amorim): "ministro meu que tirar o sapato deixará de ser ministro"". Há formas e formas de um governo se dar ao respeito.

Fernando Henrique, por exemplo, não condecorou a mulher, a antropóloga Ruth Cardoso, nem a do vice Marco Maciel, nem ainda a do ministro Celso Lafer. Anteontem, as senhoras Marisa Letícia, Mariza Alencar e Ana Maria Amorim, casadas, respectivamente, com Luiz Inácio Lula da Silva, José de Alencar e Celso Amorim, foram agraciadas, entre outras pessoas, com a Ordem de Rio Branco. "Não se pode imaginar a atuação do presidente Lula sem o apoio de sua mulher", justificou o titular do Itamaraty, invocando o encanecido ditado de que por trás de um grande homem sempre há uma grande mulher. É dele, por sinal, o termo "nosso guia" aplicado a Lula.

O improviso presidencial teve também uma metáfora sem pé nem cabeça. Para ilustrar o quanto o Brasil ficou importante, a ponto de gerar "ciúmes" (sic) e "inimigos", Lula imaginou a seguinte cena: "A gente vai chegando num baile que tinha 3 caras bonitos, 50 mulheres. Depois, chegam mais 50 caras bonitos e as mulheres vão variando. O dado concreto é que o Brasil não é mais coadjuvante." Imagine-se o que devem ter pensado os novos egressos do rigoroso Instituto Rio Branco que o ouviam. No exterior, o que começa a desconcertar é a conduta do Brasil, como apontou ontem no Financial Times de Londres o comentarista John-Paul Rathbone.

Lula de fato se comporta como se o País já fosse um dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, a meta das metas da sua política externa. Na realidade, a linha seguida pela diplomacia brasileira ? "narcisista e ingênua", observa Rathbone, citando os críticos do Itamaraty ? joga contra a pretensão do presidente. Ou, nas palavras do inglês, "a política brasileira do arco-íris pode estar chegando ao seu limite". Paradoxalmente, se é verdade, como tudo indica, que a comunidade internacional concedeu ao Brasil o atestado de maioridade de que Lula se vangloria, é também verdade que isso engendra expectativas de desempenho que o Itamaraty hoje em dia só faz frustrar.

Quanto mais o Ocidente presta atenção no que Brasília diz e faz na cena global, tanto maior a repercussão do que Rathbone chama, eufemisticamente, as "gafes" de Lula. Não foi o líder de um paiseco, ou de um "coadjuvante", como ele disse que o Brasil deixou de ser, que condenou o encarcerado ativista cubano de direitos humanos Orlando Zapata por ter feito a greve de fome que o matou depois de 86 dias.

Pior ainda: para os centros mundiais de decisão, uma coisa é o autocrata venezuelano Hugo Chávez se abraçar ao iraniano Mahmoud Ahmadinejad, outra, incomparavelmente mais grave, é o democrata brasileiro advogar para ele na crise gerada por sua recusa a submeter o seu programa nuclear à inspeção da ONU, a que o Irã está obrigado. A diplomacia lulista tem menos nexo ainda do que as metáforas do presidente.

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