A direita festeira e suas conspirações glamourosas

Ela não postula um programa sustentável e sério para amparar os que mais precisam

*Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2016 | 03h13

Volta e meia, psicanalistas costumam brincar com a piada do sujeito que chega ao consultório, acomoda-se no divã e pondera, em pleno gozo de seu juízo: “O fato de eu ser paranoico não significa que eu não esteja sendo perseguido”. Lembrei disso quando, dia destes, alguém comentou ao telefone: “Tudo bem, a gente não pode cair nas teorias conspiratórias, mas isso não significa que uma grande conspiração não esteja em curso”.

Do paranoico não há muito a dizer. Ele ordena a sua fala a partir da fantasia de perseguição. O sujeito pode até ser perseguido de fato, o que não muda nada. Um marido ciumento, uma mulher abandonada, um credor, um vendedor de assinaturas de revista ou um grampo da Polícia Federal podem estar no encalço de qualquer um, a qualquer momento, mas o que tortura o nosso paranoico anedótico não pertence ao plano dos fatos: ele é violentamente perseguido pelo discurso da paranoia que está dentro dele e, nesse discurso, só lhe cabe o papel da caça.

Quanto ao mais, a paranoia não é o assunto deste artigo. A questão pode ser debatida, elaborada e, eventualmente, tratada pelos profissionais que têm autorização para cuidar do inconsciente alheio. Eu sou um reles professor universitário.

A enfermaria aqui é outra: o ambulatório das teorias conspiratórias. Seu mecanismo central é permitir a um infeliz qualquer, abatido por uma tragédia real ou imaginária, jogar para outra pessoa a culpa de seus males. Graças à teoria conspiratória, o referido infeliz se imagina desde logo absolvido e, não raro, até se põe a sonhar com o dia em que vai virar estátua em praça pública. Seu calvário será pranteado, a justiça virá. Ele não é responsável pelo próprio destino, não passa de um “perseguido”, um mártir, um inocente vertebrado apenas de boas e elevadas intenções. Se as coisas deram errado, ora, foi obra de gente malvada e pérfida que, do lado de lá, tramou com as forças do mal e venceu o bem.

As teorias conspiratórias são uma espécie branda de paranoia no discurso político. São um delírio coletivo, mas, como já foi dito, isso não significa que uma conspiração não esteja em curso. Aliás, talvez até esteja. Essa conspiração, na sua fase presente, não se manifesta pelo estereótipo convencional: não é uma aliança subterrânea entre sócios improváveis que concertam ações premeditadas para lograr um intento danoso contra os fracos e oprimidos. A atual conspiração tem uma forma menos clássica e mais carnavalesca: em estado explícito de euforia esnobe emulando valores superconservadores no campo dos costumes, ultraliberais no campo da economia e superautoritários no campo da política.

Esse bicho vivia escondido, mais recluso, recatado, e agora perdeu a vergonha (e os bons modos). Tentemos olhá-lo de frente, sem o temer.

Deixemos, então, de lado as alucinações clínicas dos órfãos de Dilma Rousseff que se enclausuram nas teorias conspiratórias e, uma vez instalados lá dentro, se julgam desobrigados de qualquer autocrítica. Deixemos de lado os que fingem que os governos do PT não foram um laboratório sem limites dos crimes de colarinho-branco e os que alegam à boca pequena que seus “operadores” de estimação apenas “tiravam dos ricos para dar aos pobres”, sem reconhecer que o vetor da corrupção, não importa o partido político, é sempre o mesmo, sempre tira dos pobres, que ficam cada vez mais pobres, para dar aos ricos, que ficam cada vez mais ricos.

Não nos ocupemos, enfim, dos que supõem possível ser de esquerda sem observar uma ética humanista. Tratemos, antes, da conspiração espetaculosa dos outros, os que celebram sem descanso a queda – tardia – da presidente Dilma Rousseff, e a celebram com insensibilidade, irresponsabilidade e arrogância.

Dizia-se nos anos 1970 que existia uma “esquerda festiva”, cujos integrantes seriam “inocentes úteis” sem a menor conexão com o “mundo real”. A “esquerda festiva” até poderia ter o mérito do idealismo, mas pecava pela inconsequência e pela falta total de pragmatismo. Hoje estamos às voltas com uma certa direita festeira. Seus desinibidos convivas conseguiram fascinar os mais pobres, mas não mostram a humanidade necessária para cultivar os laços insubstituíveis da solidariedade e da compaixão. Não primam pela sensibilidade e, logo, tendem à irresponsabilidade política: não postulam um programa sustentável e sério para, durante a transição necessária, amparar os que mais precisam de amparo. A direita festeira, em suas apoteoses ideológicas, é arrogante e fechada. Com o perdão do termo forte, é desumana.

A direita festeira não é uma fantasia psíquica. É um fato. Teorias conspiratórias à parte, impõe-se como uma onda em que a tecnocracia dá as mãos à indiferença para exercer o poder. É preciso mudar o País? É claro. É preciso cortar os gastos da máquina pública? Sem a menor dúvida. Mas, atenção, é preciso fazer isso sem descuidar dos pequeninos. É preciso combater os privilégios? É claro que sim. Mas será que os privilegiados não são só os funcionários públicos aposentados? Alguém aí se lembrou de taxar as grandes fortunas, cujos donos seguem sendo os maiores privilegiados do Brasil?

O cenário não é bom (além dos números). As consequências são imprevisíveis (mesmo no campo dos números). O que se espera para o futuro da nossa gente? “Algum dia, quem sabe, todos os brasileiros poderão usar polo Ralph Lauren”, disse João Doria Júnior, prefeito eleito de São Paulo (em entrevista a Julia Duailibi, no sábado à tarde, na Conversa com a Fonte, do Festival piauí GloboNews de Jornalismo). Dá-lhe, Maria Antonieta. Ai esta terra ainda vai virar uma imensa Miami. Ou terá sido escárnio?

Eu, que não creio em teorias conspiratórias, apenas torço para que o sentimento de humanidade ilumine os que usam black-tie (polo Ralph Lauren) e os faça olhar com respeito os humildes que para eles olham com tanto desejo.

*Jornalista, é professor da Eca-Usp

 

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