A dobradinha FMI-Obama

A economia mundial poderia ganhar um bom impulso, em pouco tempo, se a potência mais importante, os Estados Unidos, conseguisse avançar com maior velocidade. Forçado politicamente a uma severa contenção de gastos, o governo americano pouco poderá fazer, a curto prazo, para estimular a produção, o consumo e o investimento.

O Estado de S.Paulo

16 Junho 2013 | 02h11

O Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu no primeiro trimestre em ritmo equivalente a 2,4% ao ano - um resultado invejável para quase todo o mundo rico -, mas provavelmente será difícil manter esse dinamismo nos próximos meses. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima para 2013 uma expansão de 1,9%, por causa de forte restrição orçamentária. Empenhado, até agora sem êxito, em conseguir acordo com a oposição para adotar uma política fiscal mais flexível, o presidente Barack Obama acaba de receber o apoio do Fundo às suas propostas. Falta conferir se isso influirá nas decisões da oposição republicana, mas a fórmula recém-apresentada parece muito razoável.

Segundo o FMI, o principal desafio para os formuladores da política econômica é sustentar a recuperação e, ao mesmo tempo, cuidar das finanças públicas e da estabilidade financeira no prazo médio. Não se trata de escolher entre crescimento e ajuste, mas de encontrar uma boa combinação dos dois objetivos. Essa combinação existe, segundo os economistas da instituição, e inclui uma reorientação da política orçamentária.

A sugestão da equipe do FMI é composta de cinco pontos: 1) abandonar o amplo corte de gastos em vigor e adotar uma política de ajuste de médio prazo; 2) elevar prontamente o teto da dívida pública; 3) aplicar medidas para tornar as contas públicas sustentáveis a longo prazo, jogando as medidas mais duras para o fim do processo; 4) continuar preparando o terreno para a normalização da política monetária; e 5) tornar mais resistente o sistema financeiro americano e contribuir para o fortalecimento do sistema global.

Dois detalhes são particularmente importantes nesse conjunto de propostas. O primeiro é a redistribuição do peso da política de ajuste orçamentário. Os objetivos de reduzir o déficit federal e a dívida pública permanecem e são centrais para a estratégia do governo, mas será preciso alongar o prazo e deslocar o maior esforço de ajuste para a etapa final.

Isso deve abrir maior espaço para políticas de estímulo a curto prazo. Com a retomada do crescimento econômico e o aumento da arrecadação, a tarefa será presumivelmente mais fácil e menos penosa na fase seguinte. Essa reordenação da política dependerá, naturalmente, de um acordo bipartidário sobre um programa fiscal claro e crível para execução pelo atual e pelo próximo governo.

Em segundo lugar, é preciso reconhecer as limitações da política monetária. Com o aperto do orçamento da União, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) tem sido a principal fonte de estímulos à reativação da economia. Os incentivos têm sido proporcionados por juros básicos muito baixos, entre zero e 0,25% ao ano, e pela emissão de enorme volume de dinheiro, posto em circulação por meio da compra de títulos pelo Fed. Na atual fase de afrouxamento monetário, as compras tendem a chegar a US$ 85 bilhões por mês.

O Fed já anunciou uma possível mudança dessa política e esse anúncio, embora sem prazo para a redução do incentivo, já tem afetado os mercados financeiros. Com a perspectiva de menor emissão de dólares, a moeda americana já se tem valorizado e as perspectivas de financiamento para os emergentes, incluído o Brasil, já são consideradas menos favoráveis. Isso explica a decisão do governo brasileiro de reduzir o imposto cobrado sobre o ingresso de recursos estrangeiros.

Quanto maior o incentivo fiscal, menor poderá ser o estímulo monetário à economia dos Estados Unidos. Um maior crescimento americano será obviamente benéfico para o Brasil. Mas, diante do provável aperto no mercado financeiro, o governo brasileiro deve cuidar mais seriamente, desde já, dos fundamentos da economia nacional.

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