A dupla rejeição a Sarkozy

Derrotado por 1,5 ponto porcentual de diferença na primeira rodada da eleição de domingo na França, o presidente Nicolas Sarkozy poderá se tornar o 11.º chefe de governo da União Europeia a perder o cargo desde que a crise econômica contagiou o continente. A novidade é que, a se confirmarem no segundo turno de 6 de maio as previsões de nova vitória do socialista François Hollande, o resultado contrariará a tendência do eleitorado europeu de preferir líderes conservadores para tirar os seus países do sufoco. Foi o que aconteceu na Espanha, em novembro último, quando, pela maioria absoluta dos votos, o Partido Popular, de centro-direita, removeu os socialistas do poder que exerciam há sete anos.

O Estado de S.Paulo

24 Abril 2012 | 03h08

Já do outro lado dos Pirineus, depois de 12 anos de governos conservadores, a maioria absoluta do eleitorado votou anteontem por mais crescimento, emprego e gasto público - e menos pirotecnia no governo. De uma forma ou de outra era o que propunham, além de Hollande, com seus 28,6% dos sufrágios, o candidato da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon (com 11%, o melhor índice da gauche radicale desde 1981), e a líder da xenofóbica Frente Nacional, Marine Le Pen, que arrebanhou nada menos de 18%, no mais vistoso desempenho da legenda em 30 anos. O populismo de direita, por sinal, está em alta na Europa, com as suas diatribes contra a imigração africana, o islamismo, a globalização, o euro e a sua grita por políticas mais repressivas em geral. "Somos agora a única e verdadeira oposição à esquerda ultraliberal, frouxa e libertária", proclamou Marine.

Outro claro indício das intenções do eleitorado francês - 80% do qual foi às urnas, desmentindo a sua alegada apatia - está na votação decepcionante do centrista François Bayrou. Com 9% dos sufrágios, teve a sua pior marca em três eleições presidenciais. Não por acaso, de todos os dez candidatos inscritos, foi quem defendeu posições mais próximas às de Sarkozy em matéria de economia, embora criticasse severamente a sua conduta no Palácio do Eliseu. Nisso, compartilhava o sentimento dominante do grosso da população, tanto que nenhum outro presidente-candidato entrou na disputa com tão baixo nível de aprovação: 36%. A propósito, jamais um presidente francês conseguiu se reeleger sem vencer no primeiro turno.

A maioria dos seus concidadãos parece até mais irada com o comportamento pessoal do hiperativo Sarkozy - exibicionista, vulgar, deslumbrado, grosseiro, agressivo são alguns dos termos com que tem sido alvejado - do que com as suas políticas: elevação da idade mínima da aposentadoria de 60 para 62 anos, flexibilização da jornada semanal de trabalho de 35 horas, reforma do ensino superior e do sistema tributário. No país em que desde os tempos do general De Gaulle, nos anos 1960, se espera dos presidentes o decoro de um monarca, as atitudes de Sarkozy foram consideradas vergonhosas. Nas pesquisas, mais de 60% dos eleitores de Hollande diziam que a sua principal motivação era livrar-se do inconveniente governante. A França não quer austeridade fiscal, mas um presidente austero.

Ciente disso, o plácido Hollande - apelidado "pudim" por sua aparente falta de vigor - procurou transformar as suas limitações em virtudes, prometendo ser um presidente "normal". De seu lado, Sarkozy já indicou que buscará explorar na nova campanha a "inexperiência" do adversário. A sua primeira provocação foi desafiá-lo para um terceiro debate não programado na TV. O socialista recusou. Em vez disso, baterá na tecla de que a eleição foi um referendo sobre Sarkozy, e ele foi punido. "Sou o candidato das forças que pretendem virar uma página", apregoou.

Ambos estão diante do imperativo de cortejar o eleitorado de Marine Le Pen - uma constrangedora contingência no caso de Hollande, um irrepreensível democrata.

Sarkozy se adiantou ao rival, adotando de imediato o léxico da extrema direita ao recorrer a expressões como "nossas fronteiras" e "identidade francesa". O seu problema é que muitos dos eleitores de Marine não praticam o voto útil: pretendem se abster em maio e voltar às urnas em junho para votar nos candidatos da Frente Popular ao Parlamento.

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