A economia aquecida

A economia brasileira continua aquecida, com mais gente empregada, mais salários para gastar, crédito ainda abundante e despesa pública em expansão. Desde o começo do ano o governo promete frear a economia, para conter a inflação e repor a atividade num ritmo seguro e duradouro. Seria perigoso deixar repetir-se o crescimento de 7,5% registrado em 2010. Foi um excelente desempenho, depois de um ano e meio de atividade contida pela recessão internacional. Mas desde os meses finais do ano passado os sinais de inflação em alta já eram preocupantes. Além disso, a demanda excessiva, combinada com o câmbio valorizado, voltou a afetar as contas externas - como já ocorria em 2008, antes de chegarem ao Brasil os efeitos da crise financeira.

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21 Julho 2011 | 01h04

Mas até agora os esforços para conter a demanda produziram resultados muito modestos. Em junho o desemprego nas seis maiores áreas metropolitanas ficou em 6,2%, o nível mais baixo desde março de 2002, início da atual série de levantamentos do IBGE. A população ocupada nessas áreas, 22,4 milhões de pessoas, foi 2,3% mais numerosa que a de um ano antes. O aumento da ocupação foi acompanhado de uma elevação dos ganhos. O rendimento médio real (descontada a inflação) foi 4% maior que o de junho de 2010.

Como se expandiram ao mesmo tempo o rendimento médio e o número de ocupados, a massa do ganho real habitual foi 6,2% superior à de um ano antes. A evolução da massa de rendimentos e a continuada expansão do crédito se refletem no vigoroso aumento do consumo. De abril para maio o saldo de empréstimos para pessoas físicas com recursos livres dos bancos aumentaram 1,7%. Em 12 meses o aumento foi de 18,4%. É fácil entender, com base nesses dados, a movimentação do comércio interno. Em maio, as vendas no varejo foram 0,6% maiores que as de abril, em volume. De janeiro a maio, o total acumulado foi 7,4% superior ao de igual período de 2010. Mas a receita do comércio em valores correntes foi 13,4% maior que a de janeiro a maio de 2010. A diferença em relação ao crescimento do volume pode resultar, em parte, da recomposição das vendas. Mas com certeza reflete a alta de preços.

O crescimento dos vários setores industriais tem sido desigual. Entre janeiro e maio, a indústria em geral produziu 1,8% mais que nos primeiros cinco meses de 2010. A produção de bens de consumo foi 0,9%. A de bens intermediários, 1,4% superior à de um ano antes. Parte da demanda interna tem vazado para o exterior e isso se reflete no aumento das importações. O aumento das compras externas é parcialmente explicável pelo descompasso entre o crescimento da demanda e a expansão da oferta interna. Mas o fator mais importante é, provavelmente, o preço: câmbio valorizado e custos impedem a indústria brasileira de competir com a da China e de outras economias dinâmicas.

A demanda interna é alimentada também pelo gasto público. Não falta ao governo dinheiro para gastar. No primeiro semestre a arrecadação federal foi 12,7% superior à de janeiro a junho de 2010, descontada a inflação. O crescimento da receita - igualmente um reflexo da economia aquecida - tem facilitado, neste ano, o cumprimento da meta de superávit primário, o dinheiro posto de lado para o pagamento de juros. Não basta, no entanto, alcançar o resultado primário definido oficialmente.

Para conter a demanda, o governo precisa fazer mais que isso e cortar seus gastos com rigor. Não há sinal desse corte e, no próximo ano, talvez nem a meta fiscal seja alcançável sem a maquiagem contábil que consiste em descontar da meta o dinheiro aplicado no Programa de Aceleração do Crescimento.

A contenção da demanda interna continua sendo um desafio para os Ministérios da área financeira e para o Banco Central. Sem um efetivo controle dos gastos, o ajuste da economia continuará dependendo quase exclusivamente da política monetária. Ninguém deve iludir-se com a atual trégua da inflação. As pressões serão tanto mais fortes, nos próximos meses, quanto mais forte for a demanda.

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