A economia da água

A média mensal do consumo de água na região metropolitana de São Paulo baixou 23% nos últimos dez anos, passando de 17,4 m³, em 1998, para 13,4m³, por residência, em maio passado. O dado é da Sabesp. Enquanto isso, o número de imóveis cadastrados na região aumentou 55%, passando de 3,3 milhões para 5,1 milhões. Para a estatal, a queda do consumo é resultado das campanhas sobre uso racional da água, dos investimentos em controle de perdas e também das mudanças de hábitos da população e do uso de materiais hidráulicos mais modernos nas redes domésticas e industriais. Para alguns ambientalistas, no entanto, o resultado alcançado nos últimos dez anos não passa de manobra aritmética. Em entrevista ao Estado, o ex-presidente da Agência da Bacia do Alto Tietê Julio Cerqueira Cesar Neto contrariou os números da Sabesp, lembrando que, se a Sabesp só produz 66 m³ por segundo de água, é impossível que atenda 100% da população, como proclama, o que exigiria uma oferta de 73 m³/seg. Segundo ele, o volume produzido hoje seria suficiente para atender apenas a 90% da demanda, o que deixaria 2 milhões de pessoas sem água.Esse cálculo, porém, não considera a economia de água resultante de várias iniciativas adotadas pela Sabesp. Por exemplo, a perda de água foi reduzida de 32% do fornecimento em 2006 para 28% em 2008, economia suficiente para abastecer uma cidade de 600 mil habitantes. Nos últimos dez anos, também a população contribuiu com o uso mais racional da água. Em 2003, por exemplo, a região metropolitana de São Paulo foi duramente castigada pela estiagem. A Sabesp realizou uma campanha de economia de água baseada em metas de consumo e dos 3,2 milhões de ligações da companhia, 1,6 milhão cumpriu a meta. Mesmo quem não cumpriu a meta reduziu o consumo. Além disso, a Sabesp vem aumentando o seu programa de investimentos, que, segundo o plano de metas que será executado até 2010, passou de R$ 3,84 bilhões para R$ 5,87 bilhões. O objetivo é manter a universalização do abastecimento de água e aumentá-lo para mais 2 milhões de pessoas. No ano que vem, o sistema Taiaçupeba, em Suzano, deverá ser inaugurado, o que ampliará a oferta em mais de 5 mil litros por segundo. Há ainda o Programa de Uso Racional da Água (Pura), lançado para incentivar o consumo consciente por meio do uso de tecnologia avançada e de mudanças de hábito, que atingiu resultados surpreendentes em muitas escolas, indústrias, órgãos públicos e outras entidades que aderiram ao programa. A cozinha industrial da montadora Ford, por exemplo, com orientação da Sabesp reduziu em 52% seu consumo de água. Na Universidade de São Paulo, a redução chegou a 43% e em 50 escolas estaduais da região metropolitana, o consumo baixou 40%.O Pura foi desenvolvido em convênio com a Escola Politécnica, da USP, para ser implementado em unidades consumidoras que, na cidade de São Paulo, apresentam um consumo mínimo de 1.000 m³/mês, ou de 500 m³/mês em localidades do interior ou litoral.Programas como o ProAcqua, que permite a medição individualizada de cada apartamento dos condomínios residenciais, também resultam em redução significativa no consumo de água, que pode chegar a 40%. A Sabesp tem orientado seus clientes industriais no sentido de reduzir o consumo de água e, consequentemente, o custo de seus processos produtivos. Esse tipo de atuação é de extrema importância para a região metropolitana de São Paulo, onde a disponibilidade de água é de pouco mais de 200 m³ por habitante por ano, volume que representa menos de 10% do índice de referência adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais de 50% da água consumida por 18,5 milhões de moradores da Grande São Paulo já é trazida de bacias cada vez mais distantes, com custos cada vez mais elevados. É evidente que a queda de 23% no consumo de água em dez anos não resolve o problema, mas indica que o modelo de atuação da Sabesp está na direção certa.

, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2009 | 00h00

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