A economia inútil de Furnas

A empresa Furnas Centrais Elétricas tem capacidade própria de geração superior a 8 mil MW, mais de 19 mil km de linhas de transmissão de energia e fez investimentos de R$ 1,2 bilhão, no ano passado, informa o Relatório Anual de 2010. É uma das maiores concessionárias de energia do País e subsidiária da Eletrobrás, mas decidiu economizar 1% do investimento postergando a compra de um transformador para a subestação do Grajaú, no Rio. Economizou, com isso, R$ 12 milhões, em 2010, mas o resultado foi um apagão, em dezembro do ano passado, com grandes prejuízos para os consumidores e uma pesada multa imposta à empresa, segundo reportagem de Karla Mendes, no Estado de domingo passado.

O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2011 | 03h05

O número de transformadores em uma subestação é calculado tecnicamente para assegurar o fornecimento contínuo de energia, o que exige a instalação de equipamentos de reserva. Como Furnas não instalou esses equipamentos, foi multada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em R$ 17 milhões. Em resumo, Furnas opera com um número de transformadores abaixo do necessário desde maio de 2010, segundo a Superintendência de Fiscalização da Aneel. Os fiscais da Aneel identificaram "falhas graves e primárias" no planejamento da empresa, descumprimento do contrato de concessão e "ações em desacordo com os procedimentos de rede". Também não respeita a obrigatoriedade de "manter instalações e métodos operativos adequados, que garantam bons níveis de regularidade, eficiência e segurança".

O apagão causa um duplo prejuízo: de um lado, porque interrompe a produção nas empresas, das vendas no comércio, das atividades nos serviços e de quem trabalha ou estuda em casa; de outro, porque encarece as tarifas, pois a interrupção no fornecimento de energia leva o Operador Nacional do Serviço Elétrico (ONS) a determinar a ligação de usinas térmicas, que produzem energia mais cara, para substituir a energia que falta.

No caso, foi acionada a Termoelétrica Barbosa Lima Sobrinho - e o custo para os consumidores do Sudeste e do Centro-Oeste foi estimado pela reportagem do Estado em R$ 275 milhões. Esse valor é incluído nas contas de eletricidade dos consumidores, no item Encargos de Serviços do Sistema (ESS). A termoelétrica não deixou de funcionar desde o apagão, segundo a reportagem. O acréscimo é de R$ 8 por MWh, como se estima. E vai aumentar, se o transformador não for instalado na subestação do Grajaú até dezembro.

O diretor-geral do ONS, Hermes Chipp, calcula que o montante do prejuízo é da ordem de R$ 24 milhões por mês, ou seja, é igual a duas vezes o valor de compra do transformador. Isso é algo inacreditável num sistema que se pretende confiável. "Se tivesse o transformador, a termoelétrica não precisaria estar ligada", resumiu o superintendente de Regulação da Geração da Aneel, Rui Altieri Silva. E, como notou Hermes Chipp, "com apenas três bancos de transformadores, não há como ter segurança sem ligar a termoelétrica".

Furnas está recorrendo da multa, que terá de ser confirmada pela diretoria da Aneel. E informa que a subestação do Grajaú estará pronta neste ano. Argumenta que fez uma licitação para a compra do transformador em abril de 2010, mas todos os proponentes foram desclassificados por não apresentarem a documentação necessária. Em maio de 2010, justifica, ocorreu falha em outro transformador.

Os sistemas elétricos operam com folga de capacidade porque as interrupções podem ser frequentes, a um custo elevadíssimo. Mas no Brasil essa regra é respeitada só em parte, porque as usinas termoelétricas oferecem energia de reserva. Falta investir na manutenção, na substituição dos equipamentos obsoletos e no aumento da capacidade, de modo a atender à demanda - e o resultado são os apagões.

O que ocorreu em Furnas é um exemplo da falta de prioridade dos investimentos e de descaso com os consumidores, que, afinal, pagarão a conta.

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