A economia pós-Copa

Depois do tombo da Copa, a economia voltou a se mexer e a atividade aumentou 1,5% de junho para julho, segundo o índice do Banco Central (IBC-Br), um sinalizador de tendência do Produto Interno Bruto (PIB). Mas seria arriscado interpretar esse movimento como um novo arranque, um prenúncio de maior dinamismo numa produção por longo tempo emperrada. Com essa melhora, o indicador apenas voltou ao nível de maio e ficou 0,31% abaixo do registrado um ano antes, na série livre de fatores sazonais. Uma recuperação ainda muito modesta havia sido apontada, alguns dias antes, pelos números da indústria divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O crescimento da produção industrial em julho, de 0,7%, nem foi suficiente para o retorno ao nível de dois meses antes, porque a queda em junho havia chegado a 1,4%.

O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2014 | 02h03

Essa queda foi, em grande parte, atribuída à redução da atividade no início da Copa, mas seria um erro esquecer outros fatores negativos, de efeito mais duradouro, observados em outros meses, como o baixo investimento produtivo, o enfraquecimento da indústria e a redução do emprego nas fábricas. A inflação, o endividamento das famílias e o crédito mais difícil também têm afetado os negócios, prejudicando o consumo e alimentando o pessimismo dos empresários.

Na quinta-feira, um dia antes da divulgação do Índice de Atividade do BC, o IBGE publicou os últimos números do comércio varejista. As vendas do varejo restrito foram 1,1% menores que as de junho. Foi a maior queda em um mês de julho desde o ano 2000. As do varejo ampliado - com inclusão de veículos, autopeças e material de construção - cresceram 0,8%, mas ainda foram 4,9% menores que as de um ano antes.

Os dados do IBC-Br foram precedidos, portanto, de informações pouco entusiasmantes sobre a produção da indústria e sobre as vendas ao consumidor final. Examinados mais de perto, combinam com um quadro geral de baixo dinamismo fora do agronegócio. O nível de atividade representado pelo índice de julho praticamente coincide com o de maio, mas é inferior aos de todos os meses de janeiro a abril. Além disso, a média dos meses de maio a julho é 0,95% inferior à do trimestre de fevereiro a abril.

Também o crescimento de janeiro a julho e o acumulado em 12 meses são muito baixos. No ano, o indicador de atividade avançou apenas 0,07%. Nos 12 meses terminados em julho, o avanço chegou a 1,14%, na série livre de fatores sazonais. Diferenças entre os números do BC e os do PIB calculado pelo IBGE são normais, mas os cenários desenhados tendem a ser parecidos.

Isso ocorre também neste caso. Pelas contas do IBGE, o PIB cresceu 1,4% nos quatro trimestres até junho deste ano. Na primeira metade de 2014 as estimativas indicam uma recessão, com duas quedas do PIB - 0,2% no primeiro trimestre e 0,6% no segundo. O valor produzido entre janeiro e junho foi 0,5% inferior ao dos primeiros seis meses de 2013.

Ao rever os valores do período de abril a junho, o IBGE poderá, talvez, descobrir um desempenho econômico pouco melhor que o apurado na primeira estimativa. Mas essa descoberta, se ocorrer, terá efeito meramente estatístico. Nem para o discurso político terá muita utilidade. Além do mais, o cenário geral mostrado pelos principais indicadores é muito ruim. Isso vale tanto para os primeiros seis meses do ano quanto para os meses de julho e agosto. O ano será provavelmente encerrado com algum número positivo. Mesmo com resultados muito fracos, este semestre poderá ser melhor que o anterior. Mas nem isso tornará 2014 um ano bom para a economia brasileira.

Durante 15 semanas consecutivas, até 5 de setembro, os economistas do mercado financeiro reduziram suas estimativas de crescimento neste ano, segundo a pesquisa semanal Focus, do BC. Na mais recente, a mediana das projeções caiu para 0,48%. Papai Noel poderia, talvez, proporcionar um número pouco melhor, mas, por enquanto, as contratações do comércio para o fim do ano estão em marcha muito lenta.

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