A eficiência entra na pauta

O desafio central é promover a competitividade, e para isso será preciso cortar custos e elevar a eficiência produtiva, disse o senador Armando Monteiro Neto, escolhido para chefiar o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. No mesmo dia, o Ministério divulgou o resultado comercial de novembro, um déficit de US$ 2,35 bilhões, e o acumulado de 11 meses, um buraco de US$ 4,22 bilhões, com exportações e importações menores que as do ano anterior. Um dia depois, novos dados sobre a indústria apontaram estagnação entre setembro e outubro e queda de produção durante o ano. As novas informações formaram um contraponto perfeito ao discurso do futuro ministro, voltado muito mais para os problemas internos do que para as dificuldades impostas pela crise internacional.

O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2014 | 02h05

Se as ações corresponderem ao discurso, o País terá, pela primeira vez em muitos anos, uma efetiva política de desenvolvimento, voltada para a modernização e para o aumento da capacidade produtiva - da indústria e do seu entorno. Será uma virada tão importante quanto a anunciada na semana anterior pelos futuros ministros da Fazenda e do Planejamento, Joaquim Levy e Nelson Barbosa, e pelo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, escalado para permanecer no posto.

As fraquezas do sistema produtivo e o fracasso do protecionismo e dos estímulos seletivos dos últimos anos são evidentes nos dados da indústria e do comércio exterior.

De janeiro a outubro, a produção da indústria geral foi 3% menor que a de igual período de 2013. Entre 2011 e 2013, a variação acumulada havia sido ligeiramente negativa. Pior tem sido o desempenho do setor de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos. Neste ano, até outubro, ficou 8,8% abaixo do nível de um ano antes, prolongando uma série de resultados pífios. Como a importação de bens de capital, entre janeiro e novembro, foi 6,6% menor que a dos meses correspondentes do ano anterior, é evidente a redução do investimento produtivo, isto é, do potencial de crescimento.

A anemia da maior parte da indústria - uns poucos setores ainda são competitivos - aparece com clareza nas trocas internacionais. Neste ano, até novembro, a exportação de manufaturados, US$ 73,32 bilhões, foi 12,4% menor que a de igual período de 2013, pela média dos dias úteis. Os embarques de semimanufaturados encolheram 4% entre os dois períodos e ficaram neste ano em US$ 26,55 bilhões. Isso se explica, em boa parte, pela crise na Argentina, um dos principais destinos das exportações brasileiras de bens industriais. As vendas para o mercado argentino, US$ 13,28 bilhões, foram 26,9% menores que as de um ano antes. No entanto, as exportações para os Estados Unidos aumentaram 9,6% e chegaram a US$ 24,7 bilhões. Cerca de metade desse valor vem dos manufaturados.

Os números do comércio exterior ressaltam outro problema indicado pelo futuro ministro do Desenvolvimento e por estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), por ele presidida entre 2002 e 2010. O País precisa de mais acordos comerciais e de maior integração com os mercados maiores e mais dinâmicos - objetivo oposto ao da diplomacia econômica implantada pelo PT. O futuro ministro omitiu este detalhe, mas foi claro, como tem sido a CNI, na defesa de mais acordos. Uma das consequências dessa diplomacia é a dependência excessiva das vendas de commodities e da demanda chinesa. Se a estratégia fosse outra, o saldo geral teria sido menos afetado pela redução dos preços e pela queda de 1,8% na receita obtida com produtos básicos, US$ 101,92 bilhões até novembro.

Será possível resolver a maior parte dos problemas com medidas microeconômicas, destinadas a aumentar a eficiência do sistema produtivo, sem prejudicar o esforço de correção das contas públicas, disse Monteiro Neto. Ele completou esse comentário defendendo um novo papel para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com maior atenção a empresas pequenas e médias. Se isso for cumprido, será o fim da política das campeãs nacionais - mais uma alteração saneadora.

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