A eleição entre 'eles e eles'

O que o Irã quer de verdade com o seu programa nuclear não é o único enigma do país. O outro é se o líder supremo do regime, o aiatolá linha-dura, Ali Khamenei, impôs de fato uma derrota devastadora ao seu outrora protegido e atual rival, o "desviado" presidente Mahmoud Ahmadinejad, nas eleições da semana passada para o Majlis, o Parlamento unicameral de Teerã. A dúvida decerto é muito menos crucial do que a anterior, mas importa para avaliar a tendência e o processo das decisões políticas da República Islâmica, pelo menos até o pleito presidencial do ano que vem - a que Ahmadinejad já não poderá concorrer, por estar no seu segundo e derradeiro mandato. Elas envolvem, vai sem dizer, as negociações do país com o Grupo dos 5+1 (os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha) sobre a questão nuclear. Há poucas semanas, em mensagem à União Europeia, o Irã propôs a retomada do diálogo interrompido em janeiro de 2011. A oferta foi aceita.

O Estado de S.Paulo

08 Março 2012 | 03h07

Configurando um caso-limite do que em ciência política se chama "democracia com participação limitada", a teocracia iraniana escolhe com lupa quem pode disputar junto aos 48,5 milhões de eleitores as 290 cadeiras do corpo legislativo. Uma espécie de junta clerical, o Conselho Guardião, subordinado a Khamenei, elimina os pré-candidatos que, a seu ver, tenham assumido "atitudes anti-islâmicas", um conceito suficientemente amplo para abarcar os liberais que teriam ido além dos limites toleráveis. Este ano, dos 4.876 candidatos já filtrados pelos conselhos distritais, municipais e provinciais, 506 foram barrados - entre eles parlamentares interessados em se reeleger. Não sendo o voto obrigatório, restava à oposição, ainda ferida pela brutal repressão de que foi alvo ao protestar contra as fraudes que tornaram possível a reeleição de Ahmadinejad em 2009, boicotar a disputa entre "eles e eles".

Fechadas as urnas, o governo alardeou um comparecimento da ordem de 64%, 13 pontos a mais do que na eleição parlamentar anterior, em 2008 - e quatro pontos acima dos modestos prognósticos de Khamenei. Não há como verificar a veracidade dos dados, mas, em Teerã, os jornalistas estrangeiros não viram aglomerações de eleitores compatíveis com a versão oficial. Contados os votos, os candidatos alinhados com o aiatolá, entre eles o atual presidente da Casa, Ali Larijani, ficaram com a maioria absoluta das 225 vagas decididas (a definição das demais ficou na dependência de nova rodada eleitoral). Com a peneira fina dos clérigos e o boicote da oposição, a bancada reformista minguou dos atuais 60 para 19 membros.

No entanto, não se sabe ao certo - daí a questão levantada no início deste comentário - qual será a efetiva relação de forças entre os adeptos do líder supremo islâmico e os do presidente comparativamente menos intolerante em matéria de costumes na vida cotidiana dos iranianos e menos avesso a conversações com a comunidade internacional sobre o problema nuclear. Como informou o enviado especial do Estado a Teerã, Lourival Sant'Anna, com base em avaliações de observadores locais, muitos dos candidatos eleitos se guardaram de se alinhar abertamente com Ahmadinejad para não serem vetados pelos guardiões da teocracia. "A estratégia do presidente foi espalhar os seus partidários por diversos grupos e evitar que lhe declarassem apoio", revelou um analista próximo a Ahmadinejad.

Além disso, há muito espaço para negociação no Legislativo iraniano, onde as lealdades não raro são fluidas. O problema do presidente é com o atual Parlamento, onde paira contra ele a possibilidade de um pedido de impeachment por má gestão econômica. Antes da eventual votação, Ahmadinejad deverá se explicar aos deputados - um fato sem precedentes no Irã. Cabe lembrar que os cinco presidentes que o antecederam em 33 anos de regime teocrático eram antes gerentes da máquina do que condutores do país. Ele também se comportou assim no primeiro mandato. A reeleição subiu-lhe à cabeça.

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