A eleição no México

O tom do discurso da vitória expressa o nacionalismo populista que caracterizou a campanha de López Obrador e que deve marcar seu futuro governo

O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 03h00

Após duas tentativas, em 2006 e 2012, Andrés Manuel López Obrador foi eleito presidente do México com 53% dos votos na eleição realizada no domingo passado. A vitória de Obrador, do Movimento da Regeneração Nacional (Morena), põe fim a 18 anos de domínio do Partido da Ação Nacional (PAN), que governou o país de 2000 a 2012, e do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que foi praticamente o partido único no país entre 1929 e 2000 e retornou ao poder em 2012 com Enrique Peña Nieto, atual presidente.

Logo após sua vitória ter sido admitida por seus principais adversários - Ricardo Anaya (22%), do PAN, e José Antonio Meade (16%), do PRI -, Obrador fez um discurso para milhares de simpatizantes reunidos na Praça da Constituição, principal praça da Cidade do México, em que prometeu, entre outras coisas, “acabar com a corrupção no México”.

O tom do discurso da vitória expressa o nacionalismo populista que caracterizou a campanha de López Obrador e que deve marcar seu futuro governo, ainda que a realidade imponha algum comedimento às promessas de campanha mais adiante.

O duro combate à corrupção e uma administração mais austera dos recursos públicos deram o tom primordial da campanha de López Obrador, que prometeu renunciar às “mordomias” do cargo e transformar o suntuoso Palácio Nacional, sede do governo, em um parque aberto ao público.

Um dos fatores que ajudam a explicar a ascensão de López Obrador ao poder é o desgaste dos partidos ditos tradicionais, como o PAN e o PRI, perante a opinião pública mexicana. Especialmente o desgaste do presidente Peña Nieto, que está implicado em escândalo de corrupção e é considerado um líder “fraco” para fazer frente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que desde a campanha eleitoral vem adotando um discurso bastante duro em relação aos mexicanos.

Obrador aproveitou-se da frustração de uma parcela significativa da população mexicana diante do descumprimento de uma série de promessas feitas por lideranças dos dois partidos que dividiram o poder no país nas últimas décadas, especialmente no que concerne à melhoria de renda da população e ao combate à violência.

Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 18% da população mexicana vive em condições de extrema pobreza, definida pela OCDE como “abaixo da menor linha de pobreza nacional”.

A violência perpetrada pelos poderosos cartéis de drogas, que por décadas marcou o México, persiste. A fragmentação dos cartéis só agravou o problema e se tornou um enorme desafio para as autoridades. Há uma década, eram seis cartéis que dominavam o comércio de drogas entre o México e seu principal mercado consumidor de drogas, os EUA. Hoje são aproximadamente 400, segundo um levantamento feito pelo Sistema Nacional de Segurança Pública.

A ideia difundida por López Obrador, com sucesso, foi a de que nem a corrupção nem a pobreza, e tampouco a violência, foram derrotadas em seu país durante governos de políticos “tradicionais”. Era chegada a hora, segundo ele, de “renovação”, ainda que ele próprio esteja na política há três décadas e estivesse concorrendo à terceira campanha presidencial. Com este espírito, López Obrador fundou um movimento pregando a “regeneração nacional” e, assim, conquistou a simpatia dos mexicanos.

O tom personalista e por vezes messiânico do discurso do presidente eleito preocupa segmentos da sociedade e alguns analistas políticos. “Obrador tem duas convicções. A primeira, que ele tem a missão de salvar o México. A segunda, que suas qualidades (pessoais), principalmente sua honestidade, serão as únicas causas da transformação do país”, disse o analista político Guillermo Valdés Castellanos.

Seja no México, no Brasil ou em qualquer país, os cidadãos devem sempre receber com prudente desconfiança as promessas de soluções simples ou milagrosas para problemas complexos.

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