A equação da odisseia brasileira

Não basta superar a crise atual, é preciso evitar crises futuras, quem sabe mais graves

Mario Cesar Flores, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2016 | 04h00

A natureza sugere otimismo: extensão geográfica bem dotada de recursos, terra fértil, clima variado e sem catástrofes naturais. Mas o capital humano não corrobora a paisagem: nossas atribulações se devem principalmente à condução do País, à (des)organização e ao funcionamento tumultuado de nosso modelo híbrido, presidencial-parlamentarista de coalizões conjunturais envolvendo dezenas de partidos, a maioria deles inexpressivos (mas clientes do Fundo Partidário...) e de pouca (se tanto) consistência doutrinária e programática, salvo um ou outro em assunto singular – meio ambiente, por exemplo.

O descompromisso ambíguo vem permitindo qualquer filiação e qualquer coligação partidária à revelia de doutrinas e programas, vem permitindo as mudanças de partido por interesse pessoal e o mosaico de coligações na União, nos Estados e municípios, sem lógica objetiva, ressalvada a do espólio na participação do poder: interesses regionais, grupais e até pessoais justificam tal coligação aqui e a impedem acolá... A proliferação de ministérios, órgãos, cargos públicos e empresas estatais de discutível (?) necessidade atende ao escambo inerente ao modelo: vantagens e cargos (para os quais a competência não é quesito...) como condição de apoio ao governo.

O desempenho desengonçado do poder político e da máquina administrativa é consequência natural desse quadro, como o são também o abastardamento ético da política e a corrupção generalizada, hoje em trágico realce. Corrigi-los exige competência, coragem e vontade, mas a prevalência da virtude sobre a realidade viciada depende do voto do povo vulnerável à demagogia populista, à ilusão cultual do Estado gigante, com encargos além do criteriosamente possível – mais ainda porque mal conduzidos –, hoje em evidência os sociais (saúde, Previdência, educação...).

Podemos ter a esperança de que venham a emergir lideranças capazes de resolver democraticamente os nossos problemas e de que elas sejam eleitas em dimensão relativa capaz de se impor?

As eleições de 2016 confirmaram o que a opinião pública vem manifestando há anos, refletida (equivocadamente porque o “não voto” favorece a mediocridade) no alto nível de abstenções, votos nulos e em branco: o descrédito a que chegou a política no Brasil, gerando em cidadãos íntegros e competentes a compreensível prudência (relutância) quanto a ingressar nela – de que a incompetência e a improbidade são as beneficiárias eleitorais... Já existem cidadãos de postura positiva que aceitam o desafio e seu número esperançosamente talvez venha a aumentar, “no embalo” do medo de desastre que estamos vivendo, mas sua eleição majoritária está longe de segura e nossas campanhas eleitorais endossam a dúvida. Embora nos níveis nacional e estaduais o vulgar costume ser menos expressivo, as campanhas municipais de 2016 expuseram a essência melancólica, cultural e ética de nosso processo político-eleitoral, simbólica e sinteticamente expressa nos comentários aqui inspirados no caso patético do Rio de Janeiro.

O povo do Rio foi alvo de estelionato mental de baixo padrão, de generalidades abstratas e promessas demagógicas, sem consistência realista, de vulgaridade abjeta, por vezes expressa em ritmo musical de mau gosto e usando codinomes ridículos, travestidos de familiaridade com o povo. Quantos “Pedrinhos da padaria” conheciam as atribuições da vereança e saberiam exercê-las, quantos de seus eleitores as conheciam e os viam preparados para elas? Até mesmo as campanhas do segundo turno foram festivais de promessas fantasiosas e acusações incompatíveis com a democracia.

Que condução política podemos esperar desse nível de campanha? O quadro não é promissor. Mas se vier a acontecer a evolução positiva, propulsada por sistemática político-eleitoral que ajude a eleger uma maioria de reformadores-estadistas comprometidos com a competência e a probidade, que dificulte o embuste demagógico nas campanhas e cerceie (tema em trânsito no Congresso) o pandemônio de coligações partidárias e candidatos amorfos cuja meta é essencialmente a participação no poder e seu usufruto, nosso conturbado Estado será reorganizado e as correções virão. Em suma: se viermos a ter uma vanguarda política à semelhança da que transformou o Japão feudal, muito menos dotado pela natureza, em potência global no século 19, o uso competente do potencial brasileiro mudará o Brasil e o fará evoluir da sua longa condição de país emergente, emergindo-o de fato. Viveremos em país que progredirá em tranquilidade social, capaz de atuar no mundo integrado na proporção compatível com o que se pode e deve esperar dele.

Se não acontecer a evolução, o Brasil continuará vivendo atribulações e mazelas com as que o flagelam hoje, provavelmente até piores; continuará na ambígua condição de “país do futuro” que não chega. Uma situação dessa, porém, natureza é insustentável no maior prazo. Mais dia, menos dia, correremos o risco de estender a desesperança na política à democracia. Correremos o risco se não de um regime ditatorial, hoje praticamente inviável, pelo menos de sanção eleitoral para alguma versão de democracia messiânica, salvacionista não liberal, à direita ou à esquerda propensa ao “flerte” com o autoritarismo de retórica democrática – em que se insere, por exemplo, o “controle social da mídia”.

É bom lembrar que a trágica farsa democrática bolivariana – farsa coerente com a visão política de Simón Bolívar, que preconizava o “despotismo capaz” para a América espanhola – tem sido vista e tratada com simpatia por políticos e intelectuais brasileiros.

Não é suficiente superar – urgentemente – a crise atual: há que evitar a ocorrência de crises futuras, quem sabe mais graves. O dilema “mas se vier a acontecer” x “se não acontecer” é a equação estrutural da odisseia brasileira hoje. Conseguiremos resolvê-la?

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