A escorregada de Capriles

Por falta de visão estratégica, ou por subestimar, espantosamente, a prontidão do regime chavista para recorrer à violência contra quem quer que o desafie, ou, ainda, por acreditar no quanto pior, melhor, o líder da oposição venezuelana, Henrique Capriles, ia cometendo um erro primário. Ao pedir a recontagem dos votos da disputa presidencial de domingo, sabendo que o Comitê Nacional Eleitoral (CNE), alinhado com o governo, não o atenderia, e - muito mais grave do que isso - ao promover suicidas manifestações de rua contra o órgão cujos membros são indicados pela Assembleia Nacional dominada pelo chavismo, ele poderia malbaratar o triunfo político que as urnas lhe conferiram. A resistência democrática no país arcaria com o prejuízo. O lucro seria de Nicolás Maduro, a quem Hugo Chávez escolheu para suceder-lhe.

O Estado de S.Paulo

18 Abril 2013 | 02h11

Segundo os números do CNE, Maduro derrotou Capriles por 1,78 ponto porcentual de diferença, ou 265 mil votos em cerca de 15 milhões válidos. Em outubro passado, Chávez venceu o mesmo Capriles por 11 pontos, ou 1,6 milhão de sufrágios. Antes ainda de serem proclamados os atuais resultados, o opositor denunciou 3.200 irregularidades nos postos de votação - como intimidação de eleitores, uso de documentos falsos, expulsão de fiscais oposicionistas - e discrepâncias entre o total de votantes e o total de votos em seções eleitorais, a favor de Maduro. O retrospecto respalda a acusação. O sistema de votação na Venezuela é um dos mais seguros do mundo: os terminais eletrônicos imprimem uma cópia do voto, que o eleitor confere e deposita numa urna; em 54% das seções, escolhidas por sorteio, os apuradores cotejam os números nas telas com os da contagem manual.

Mas isso não impede que os funcionários do CNE devassem as urnas eletrônicas para mudar votos ou identificar votantes, como aconteceu na eleição de 2004, destinada a confirmar ou destituir o chefe do governo. Conhecendo as escolhas do eleitorado, o regime demitiu funcionários públicos que votaram contra Chávez - o que desnudou o crime da autocracia e levou a oposição ao equívoco de boicotar o pleito parlamentar do ano seguinte, entregando de mão beijada a Chávez a Assembleia Nacional. Agora, Capriles deveria ter se limitado a verberar as citadas fraudes, declarar que a luta continua, reanimada pelo expressivo avanço eleitoral dos democratas, e insistir no fato de que a vitória nominal de Maduro representou uma derrota para os bolivarianos. Em vez disso, inicialmente convocou os seus partidários a se concentrar diante da sede do CNE em Caracas para exigir a recontagem dos votos.

Estendendo-se a outras cidades, o confronto que Capriles tinha a obrigação de saber como terminaria - porque o regime jamais economizou munição ao reprimir os adversários - já deixou 7 mortos, 61 feridos e mais de 150 detidos. Pior ainda, se Capriles não tivesse recuado, Maduro ganharia a oportunidade de sair do corner em que as urnas o deixaram perante os seus. Tendo fracassado em se legitimar pelo voto, legitimar-se-ia, graças ao oponente, como o "filho de Chávez" que apregoa ser. Com o cinismo típico dos autocratas, já responsabilizara e anunciara que processará a oposição pelo sangue que ele consentiu que fosse derramado e denunciou as manifestações como a ponta de lança de uma tentativa de golpe de Estado fascista. Prometeu, como revide, "radicalizar a revolução" e proibiu Capriles de liderar a marcha que havia programado para ontem.

Felizmente, o oposicionista abriu os olhos para essa perspectiva e acabou recuando da ideia inicial. Em contraste com o tom exaltado de sua fala inicial, pediu aos seguidores, numa entrevista transmitida pela TV anteontem, que desistissem da passeata. "Quem sair de casa", advertiu, "estará fazendo o jogo do governo." É exatamente o que ia fazendo, ao enveredar por uma ofensiva insustentável diante da disposição de retaliar do regime nesse país partido ao meio. Assim, Maduro deixou de ganhar de graça o acirramento das tensões que lhe permitiria, afinal, mobilizar o chavismo sob a sua liderança.

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