À espera do arranque

Passada a incerteza do processo de impeachment, os empresários têm maior segurança para cuidar das atividades produtivas, mas ainda terão de partir de um nível muito baixo

O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2016 | 03h13

Passada a incerteza do processo de impeachment, os empresários têm maior segurança para cuidar das atividades produtivas, mas ainda terão de partir de um nível muito baixo. Os sinais de reação da indústria continuam frágeis e apontam, por enquanto, muito mais uma estabilização do que um firme retorno ao crescimento. Em julho, a produção industrial foi 0,1% maior que a do mês anterior, mas ainda 6,6% inferior à de um ano antes. O volume produzido no ano foi 8,7% menor que o de janeiro a julho de 2015 e a queda acumulada em 12 meses ficou em 9,6%. Olhando as tabelas com muito cuidado, um otimista encontrará alguns detalhes animadores. Até junho, os números acumulados em 2016 foram 9,1% piores que os apurados, agora, até julho. Em 12 meses, a perda havia chegado a 9,8%. Mas a pequena melhora indicada por esses detalhes é ainda insuficiente para confirmar uma inflexão. O novo governo terá de fornecer, com sua política de mudanças, o estímulo necessário para a virada.

O pior número de julho foi o da produção de bens de capital, com recuo mensal de 2,7%, depois de seis meses consecutivos de crescimento. Nesse período houve um avanço acumulado de 14,7%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas, apesar da melhora dos números no primeiro semestre, a atividade continuou muito baixa no ramo de fabricação de máquinas e equipamentos. De janeiro a julho o total produzido foi 18,5% menor que no ano anterior. A queda em 12 meses foi de 24,7%, um claro indicador da fraqueza dos investimentos produtivos.

A melhora da produção e da venda de máquinas e equipamentos no primeiro semestre está embutida nos dados do Produto Interno Bruto (PIB) divulgados na quarta-feira. Isso é parte da explicação do aumento de 0,4% apurado na formação bruta de capital fixo. Mas essa variação mal deve ter bastado para compensar a depreciação – contábil ou física e tecnológica – do estoque de bens de capital e de instalações formado antes do atoleiro da recessão.

Os valores acumulados no ano e em 12 meses mostram tanto a baixa da produção interna como da importação de bens de capital. Os últimos quadros do comércio exterior, divulgados na quinta-feira, mostram importações de bens de capital (US$ 13,16 bilhões) 21,6% menores que as de igual período do ano anterior. Essa comparação é baseada na média dos dias úteis.

O baixo investimento é explicável pela combinação de dois fatores, a insegurança diante do quadro econômico e político (o processo de impeachment só terminou em 31 de agosto) e a enorme ociosidade das instalações. Em agosto, o uso da capacidade instalada chegou a 76,9%, ponto mínimo da série registrada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Pouco antes de publicar esse dado, a entidade havia divulgado a sondagem mensal das expectativas do empresariado industrial. Embora os sinais de pessimismo tenham diminuído recentemente, a disposição de investir, segundo os consultados, continuava muito baixa.

A melhora do humor, segundo várias sondagens e também segundo opiniões coletadas no dia a dia pela imprensa, dependerá, em primeiro lugar, da confirmação, pelo presidente Michel Temer, dos propósitos de corrigir os principais desajustes da economia nacional, a começar pelo desequilíbrio das contas públicas. Ele também terá de mostrar, agora com ações inequívocas, o anunciado compromisso de promover reformas essenciais à sustentabilidade das finanças federais – como a da Previdência – e ao funcionamento seguro da economia brasileira.

O governo aposta, segundo o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, num retorno ao crescimento ainda neste ano, embora o resultado final de 2016 deva ainda ser um PIB 3% menor que o de 2015. Para 2017 está projetada uma expansão de 1,6%. A confirmação desses números e, principalmente, a aceleração nos anos seguintes dependerão muito da restauração da confiança. Esta parte caberá ao governo.

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