À espera do Japão

Não são apenas os japoneses que desejam o êxito do programa de recuperação econômica do Japão anunciado em etapas pelo primeiro-ministro Shinzo Abe. "Chegou o momento de o Japão converter-se em força motriz da economia mundial", afirmou Abe há dias, ao anunciar a terceira e última parte de seu programa, voltada para o estímulo da atividade econômica (a primeira parte referiu-se ao afrouxamento da política monetária; a segunda, à política fiscal). O mundo também deseja que seu programa produza os resultados esperados.

O Estado de S.Paulo

20 Junho 2013 | 02h08

Se isso ocorrer e o Japão, de fato, assumir o papel de puxar a economia mundial, que já desempenhou em décadas passadas, a recuperação será mais rápida. A aceleração da economia japonesa, a terceira maior do mundo, agora interessa em particular aos países que pareciam protegidos da crise mas já começam a sentir de maneira aguda seu impacto, como o Brasil.

Os dados da economia japonesa dos últimos anos são decepcionantes. O Produto Interno Bruto (PIB) nominal é igual ao de 1991. Mesmo tendo subido vertiginosamente após a posse de Abe (quase 80% nos primeiros cinco meses de 2013), o Índice Nikkei, que mede o comportamento da Bolsa de Valores de Tóquio, é hoje pouco mais de um terço do que era há cerca de 20 anos.

A força de trabalho vem encolhendo por causa do envelhecimento da população, fenômeno que impõe custos sociais crescentes a um país que não consegue crescer. O governo, que detém a maior dívida bruta do mundo (245% do PIB), continua gastando muito e, por causa da estagnação, o setor produtivo vem perdendo algumas das características que o tornaram líder mundial, especialmente no campo da alta tecnologia.

Depois de duas décadas de estagnação e deflação, os japoneses perderam a confiança em seus políticos. Em 2007, Abe foi vítima da desconfiança dos eleitores e não conseguiu manter-se na chefia do governo por mais de um ano. Desde que voltou a chefiar o governo, em dezembro, no entanto, Abe vem instilando ânimo no país, como mostra o comportamento da Bolsa de Tóquio (apesar da queda de 20% nas últimas semanas, o Índice Nikkei continua bem acima do nível registrado na década de 1990).

Com o anúncio das duas primeiras etapas de seu programa - composto por três "flechas", como disse -, Abe alcançou altos índices de aprovação, de até 70% (contra cerca de 30% em sua primeira passagem pelo cargo). Por isso, o Partido Liberal Democrático, do qual faz parte, é favorito na eleição para a câmara alta da Dieta prevista para a segunda quinzena de julho.

A muito provável vitória eleitoral por ampla margem, porém, está longe de representar o reconhecimento dos japoneses de que o plano de Abe está funcionando. A terceira "flecha", que contém os elementos escolhidos pelo governo Abe para estimular a produção e o consumo, ainda é apenas um esboço. Até agora, não passa de um amplo e variado conjunto de intenções destinado a fazer a economia japonesa crescer 2% ao ano, como anunciou Abe.

Entre outras medidas em preparo pelo governo estão a criação de zonas econômicas especiais com alíquotas mais baixas e menos regulamentação, para atrair o capital estrangeiro; a mudança da estratégia de investimentos dos fundos de pensão controlados pelo governo, para aumentar suas aplicações em ações; a possibilidade de transferência para empresas privadas dos direitos de operação de instalações até agora controladas e operadas pelo governo, como aeroportos regionais, redes de abastecimento de água e rodovias; e o aumento do poder dos acionistas minoritários na gestão das empresas.

Além de continuarem incompletas mesmo já tendo passado pelo exame do gabinete Abe, essas medidas foram consideradas insuficientes e pouco audaciosas para colocar em movimento um gigante estagnado. Se servirem apenas para a próxima vitória eleitoral do partido do governo, será mais uma frustração para os japoneses e para o mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.