A ética nossa de cada dia

O respeito ao próximo, a empatia com os diferentes nos tornam melhores em sociedade

*JUNE LOCKE ARRUDA, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2018 | 03h00

Vivemos numa época em que, graças à tecnologia da comunicação, deparamos diariamente com situações que nos levam, ou nos deveriam levar, a refletir sobre o comportamento das pessoas em sociedade. A ética, ou a falta dela, tema tão em voga na atualidade, tem sido amplamente discutida, sobretudo quando algo de novo aparece no cenário econômico e político, que tem estado bastante movimentado nos últimos meses.

As redes sociais têm sido porta-vozes de pessoas que se sentem “empoderadas” ao postar seu comentário no Facebook, criar um canal no YouTube ou utilizar o WhatsApp para compartilhar assuntos e criar grupos para trocar ideias com amigos. Mas, ao mesmo tempo que aproveito as vantagens, eu também me preocupo.

Até que ponto a agilidade de comunicação que a tecnologia nos faculta, em que tudo está resumido a um clique ou a um deslizar de dedos sobre a tela, nos proporciona informações corretas? A rapidez da informação está obrigatoriamente vinculada a pedaços de fatos? Será que estamos fadados a conviver na superficialidade, que não nos permite mergulhar nas questões que nos assolam?

Voltemos nosso olhar para a ética. Quando pensamos na palavra ética, vem-nos logo à mente a ideia dela relacionada a um determinado campo de atuação: ética na política, ética no trabalho, ética no esporte, ética na saúde, ética na educação, etc. E sempre conseguimos expandir esse termo para a esfera que acharmos mais conveniente.

Mas a ética não existe apenas nas relações profissionais ou comerciais. É preciso ter claro que a ética é parte do nosso dia a dia, de forma que, se não formos éticos conosco, não conseguiremos ser com os demais, e não seremos éticos na sociedade em que vivemos. A ética cabe em qualquer situação da nossa vida.

Mas, afinal, o que é essa palavra, ética, nos propõe? Será que seu sentido é imutável? Que significado tem essa palavra, que invadiu os noticiários nos últimos tempos e se instalou no nosso vocabulário cotidiano?

Etimologicamente, a palavra ética é de origem grega, ethos, que significa modo de ser, costume ou hábito. Esse termo reflete o caráter e a natureza de cada indivíduo enquanto forma de vida adquirida ou conquistada.

Seguindo essa linha de raciocínio, podemos dizer que a ética é tão antiga quando o nascimento das relações humanas. Seja com Adão e Eva no Éden, ou com a evolução do homem primata de Charles Darwin, a ética já estava lá, permeando as relações mesmo sem ser percebida ou nomeada.

Vemos a primeira definição de ética na Antiguidade clássica, com os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles. Com eles surge a ideia do pensamento crítico e reflexivo sobre valores e costumes vigentes.

Se falamos em costumes vigentes, podemos dizer que ética é uma questão atual. Não importa o tempo em que ela exista, ela sempre é contemporânea. Por isso, quando falamos de ética é crucial entender, antes de tudo, os problemas com os quais a sociedade de uma determinada época está tentando lidar.

Clóvis de Barros Filho explicita, de uma forma didática, que a ética passou a ser vista no imaginário comum como uma categorização prévia sobre qualquer conduta em “certo” ou “errado”. É como se ela se bastasse numa grande tabela com duas colunas: na primeira estariam as coisas legítimas e aceitáveis e na segunda coluna, comportamentos a evitar ou intoleráveis, ou seja, pode ou não pode, isso é ético e isso não é.

De fato, se essa tabela existisse, estaria obsoleta imediatamente, porque no dia seguinte estaríamos diante de situações inéditas que essa tabela não comportaria. Por isso podemos dizer que ética tem que ver com liberdade, com a possibilidade que temos de escolher como queremos conviver.

A ética parte de uma premissa: a nossa convivência pode ser diferente do que é, portanto, a nossa convivência pode ser melhor. A ética é a inteligência compartilhada a serviço do aperfeiçoamento da convivência e, por isso, ela não é um saber acabado, não é uma tabela pronta.

Exatamente por isso podemos dizer que não existe uma ética única e universal porque ela não é individual, ela sempre será referente a um grupo, a uma sociedade, a uma comunidade, logo, cada tempo terá de construir a sua ética. A ética que se desenrola na prática do dia a dia anda junto com a moral, originária do latim morales, cujo significado é “relativo aos costumes”. Por isso, à medida que as sociedades se modificam, a ética e a moral acompanham esse processo.

Moral é algo que você tem em seu interior e orienta suas ações, sem preocupação com olhar do outro. São Paulo, o apóstolo, em sua Carta aos Coríntios também deixa lição sobre moral: “Tudo me é permitido, mas nem tudo me convém” (1Cor 6:12).

Assim, a moral diz respeito ao nosso comportamento individual, enquanto a ética nos faz ter a capacidade de aperfeiçoar nossa convivência. Nesse sentido, podemos considerar a ética como uma postura que se refere a um modo de ser, à natureza da ação humana. Trata-se de uma maneira de lidar com as situações da vida e do modo como estabelecemos relações com outras pessoas, algo muito além do contato educado. O respeito aos próximos, a empatia com os diferentes podem nos tornar melhores seres em sociedade.

Embora nos devamos preocupar com as relações agressivas que se estão estabelecendo na sociedade, é preciso ter consciência de que o relacionamento humano pode ser diferente do que está em voga, e cabe exclusivamente a nós a tarefa de refletir e pensar conjuntamente e de argumentar dentro de um espaço de diálogo para aperfeiçoá-lo no dia a dia, para que o amanhã seja melhor do que o hoje.

Façamos nossa ética de cada dia acontecer, porque, se existe ética, é porque há liberdade. Se abrirmos mão da liberdade de fazermos a sociedade que queremos, teremos também aberto mão da possibilidade de convivência entre os seres humanos e da ética!

*DIRETORA DO MSC-SP

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