A Europa e a recuperação global

Apesar do vigor da economia americana, a maior do mundo, a recuperação global perdeu impulso e deve ser menor, neste ano e no próximo, do que previa há seis meses o Fundo Monetário Internacional (FMI). A zona do euro continua sendo o entrave mais importante, com crescimento nulo no segundo trimestre e desemprego ainda elevado - 18,3 milhões de pessoas, ou 11,5% da força de trabalho. Por isso, tem enorme interesse para todo o mundo o esforço do Banco Central Europeu (BCE) para reanimar os negócios na união monetária. Três membros do G-7, o grupo das principais potências desenvolvidas, usam a moeda comum europeia: Alemanha, França e Itália. Sua participação é fundamental para o crescimento do comércio e da atividade econômica em todo o mundo. As políticas do BCE e do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) refletem o descompasso entre as economias dos Estados Unidos e da zona do euro. Desde janeiro, o Fed tem reduzido os estímulos monetários à recuperação econômica. Se o cenário nacional continuar positivo, com atividade crescente e desemprego em queda, uma alta de juros poderá ocorrer em 2015. Diante dessa perspectiva, os mercados têm valorizado o dólar. Ao mesmo tempo, aumentam os temores, nos países em desenvolvimento, de um possível aperto no crédito internacional. A ação do BCE vai no rumo oposto. Além de manter os juros em níveis muito baixos, a diretoria do banco anunciou na quinta-feira passada uma ampliação dos estímulos monetários. Nos próximos dois anos, o BCE poderá aplicar até 1 trilhão na compra de bônus e títulos lastreados. Além disso, deverá manter até julho de 2016 as operações especiais de financiamento de longo prazo. Os juros básicos serão mantidos em 0,05% ainda por longo tempo, segundo o anúncio. A taxa paga pelos depósitos de bancos vai continuar negativa (-0,20%), para estimular a expansão dos financiamentos.

O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2014 | 02h06

Segundo o presidente do BCE, Mário Draghi, medidas de política monetária estavam chegando à economia real "de forma dolorosamente lenta". Com as novas decisões, acrescentou, as ações de estímulo devem ser transmitidas mais prontamente pelos canais financeiros e a política deve ganhar eficiência.

A nova política deverá também produzir, segundo alguns analistas, um efeito cambial. Com maior volume em circulação, o euro deverá desvalorizar-se. Isso poderá tornar mais baratos e mais competitivos os produtos exportados pelos países da união monetária. Também isso contribuirá para a recuperação econômica. Mas a taxa de câmbio, segundo Draghi, está fora dos objetivos da política monetária. A declaração pode ser verdadeira quanto aos objetivos do BCE. Mas a depreciação do euro, como efeito secundário da política, é ainda uma hipótese plausível.

Ao explicar as novas decisões, o presidente do BCE voltou a cobrar mais ação dos governos para o fortalecimento econômico dos países do euro. A política monetária, disse mais uma vez Draghi, é insuficiente, apesar de importante, para estimular a recuperação e repor as economias no caminho do crescimento prolongado. Ele cobrou, como em outras ocasiões, reformas estruturais para melhor funcionamento dos mercados e aumento da eficiência. Isso inclui mudanças no mercado de trabalho.

Em boa parte as cobranças de Mário Draghi coincidem com a lista de recomendações do FMI. A diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde, voltou a defender, numa palestra em Washington, medidas adicionais para fortalecer a economia global. No caso da Europa, a orientação inclui estímulos fiscais - sem abandono do compromisso com a arrumação das contas públicas - combinados com reformas nos mercados de trabalho e de produtos. São, em geral, mudanças liberalizantes para reduzir custos, tornar os mercados mais flexíveis e facilitar os negócios.

As novas projeções divulgadas na terça-feira pelo FMI são menos otimistas que as do primeiro semestre. Os números sugerem uma recuperação lenta, com sensível descompasso entre países e regiões.

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