A eurozona em crise e seus impasses

Como uma doença, sua continuidade e seu agravamento evidenciam sérias dificuldades de solucioná-la, o que vem da sua intrincada natureza. É um grupo de países optantes por moeda única, mas com poder para gerir seus orçamentos públicos. Alguns se endividaram além da conta ao sucumbirem a ímpetos gastadores estimulados por políticos e eleitores. Estes, a desejarem benesses governamentais; aqueles, a entregá-las sem discussão da dívida pública decorrente - a qual cresceu também por outras circunstâncias que levaram a mais gastos, como as medidas de socorro na esteira da crise econômico-financeira mundial entre 2008 e 2009.

Roberto Macedo, economista (UFMG, USP e Harvard), consultor econômico e de ensino superior, é professor associado à Faap, O Estado de S.Paulo

17 Novembro 2011 | 03h06

Com dívidas elevadas e mais caras, vários países têm dificuldades de aumentá-las para cobrir déficits ampliados e também de rolá-las, empurrando para a frente o que já devem. Quem as financia - em particular bancos, com o dinheiro de correntistas e investidores - não tem na sua lógica operacional nenhum espaço para complacência. Nestes tempos, bancos costumam ser malhados, como nesta citação que vi na internet, atribuída a Napoleão Bonaparte. "Quando o dinheiro de um governo depende dos banqueiros, são estes (...) que detêm o controle. (...) O dinheiro não tem pátria e (eles) não têm nem patriotismo nem decência: seu único objetivo é o lucro". Mas também se podem descontrolar, pois às vezes o afã de lucrar turva a sua avaliação de riscos, como nos financiamentos imobiliários de segunda linha nos EUA, na outra crise citada. E agora, nesta, como no caso da dívida grega.

Quanto esses riscos aumentam, depositantes e investidores tendem a abandonar bancos com seus papéis "micados". Basta essa perspectiva para elevar seu risco de falência, como, recentemente, o de um banco europeu, o Dexia, da Bélgica. E o que aconteceu? Sua "banda podre" foi estatizada pelo governo belga, ou seja, mais gasto governamental e aumento da dívida pública.

No Brasil muitos têm dificuldade de entender esse euroimbróglio e vale lembrar problema nosso similar a ele, e que ameaçava a estabilidade do real. Foi o das dívidas de Estados e municípios que, usando a moeda nacional, tinham liberdade para gastar, às vezes enfiando seu endividamento goela abaixo de bancos estaduais que também, por outros desmandos, "micaram". A encrenca só se resolveu com a privatização de bancos nessa condição, como o Banespa, e a União assumindo dívidas de Estados e municípios, tornando-se credora deles. Mas ela fez isso impondo-lhes padrões de conduta fiscal, como o compromisso de pagar à União uma porcentagem de sua receita tributária, sob pena de penhora, e limites para dívidas e alguns gastos.

Há quem defenda solução como essa para a eurozona. Ela passaria a ter um governo central com poder para controlar os gastos dos seus países, que se tornariam como que Estados de uma nova União Europeia. Problema: a ideia ainda é politicamente impalatável dentro de cada país. Mas se afigura como solução possível mais adiante, se a ideia amadurecer e amolecer as cabeças contrárias.

Uma saída menos radical é a hoje tentada, preservando o que ainda se chama de "autonomia política" dos países em maiores dificuldades. Sob pressão e supervisão externas, e promessas de ajuda, inclusive perdão parcial de dívidas, como para a Grécia, esses países se obrigam a reduzir sua obesidade orçamentária e a cintura de sua dívida acumulada. Problema: o remédio dói. Na tentativa, caem Berlusconis e Papandreous, e até aqui não bastou o nome de substitutos tecnocratas como Papademos e Monti para acalmar assustados banqueiros. No processo, estes também são socorridos por governos, o que costuma levar a mais dívida pública empurrada para adiante. E mais: o remédio é recessivo, o produto interno bruto (PIB) sofre e faz subir a proporção entre o que restar de dívida e esse mesmo PIB, com riscos voltando a crescer, num círculo vicioso. No quadro político atual, foi a opção tomada. Pode até dar certo, mas já se pode falar de quinquênios, e não apenas de anos de menor crescimento da região, com impactos fora dela, inclusive neste "Patropi".

Outra saída possível, entre as várias cogitadas, também teve similar no Brasil: mais inflação. Nessa linha, o Banco Central Europeu emitiria muito mais euros e compraria dívidas de gregos e "troianos" da região também ameaçados pelas próprias dívidas, que, aliás, lembram equinos da raça Troia que criaram para se autoprejudicar. Resultado: uma baita e generalizada inflação em euros que diminuiria o valor real de dívidas nessa moeda, pagando a conta quem não conseguisse preservar seus orçamentos e ativos de aumentos generalizados de preços. Problema: por motivos histórico-culturais, os alemães veem essa ideia como abjeta. E bem mais cultos e politicamente ativos que os brasileiros, que engoliram esse quase veneno inflacionário no passado, outros cidadãos europeus perceberiam o golpe contra os seus bolsos e reagiriam.

Mas se a crise se agravar mesmo, pode acontecer. Aliás, já se fala também numa alternativa odiosa, a de expulsar países da eurozona. Na recente convenção do partido da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, a União Democrata Cristã, foi aprovada uma resolução pedindo normas para que países deixem "voluntariamente" o euro. No processo, assumiriam localmente o ônus inflacionário. Por exemplo, caso a Grécia voltasse à sua moeda anterior, a dracma, haveria forte inflação nessa moeda, a socializar prejuízos e com quebras de endividados em euros. Problema: o povo dos candidatos à expulsão reage a medidas de austeridade fiscal, mas também não quer deixar o euro. E se seus países saírem, evaporar-se-á para todos o sonho de uma Europa unificada e mais forte para se contrapor a gigantes como os EUA e a China.

O impacto dessa crise no Brasil será tema de um próximo artigo.

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