A expansão da dengue

O aumento assustador do número de casos de dengue notificados no País, em particular no Estado de São Paulo, é um forte indício de que as autoridades de saúde, nos diferentes níveis de governo, não estão atuando com a devida atenção e a necessária eficiência no combate à doença.

, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2010 | 00h00

O Ministério da Saúde garante que recursos para o combate à dengue foram colocados à disposição dos governos estaduais e prefeituras e que normas técnicas para a ação de vigilância e assistência em saúde foram aprovadas e divulgadas. Informa também que o governo federal e os governos estaduais estão capacitados a dar suporte técnico às equipes de operação nos municípios. Sendo assim, ou os recursos não estão sendo utilizados adequadamente ou há outras falhas nos programas de combate à doença. E este é um combate que, além de longo - pois não há evidências de que o mosquito transmissor da dengue possa ser erradicado a curto prazo -, exige atenção permanente.

De acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde, neste ano, até o dia 16 de outubro, foram notificados no País 936.260 casos de dengue, quase o dobro do total registrado no ano passado, de 489.819. No Estado de São Paulo, em particular, as notificações neste ano já superam em quase 2.000% o total registrado em 2009 - 202.312 casos, contra 9.710 (aumento de 1.984%). Os óbitos em decorrência da dengue em 2010 no País (até o dia 16 de outubro) somam 592, ou seja, 90% mais do que o total de 2009, de 312 mortes.

O Ministério da Saúde atribui o aumento de casos neste ano ao ressurgimento do tipo 1 da doença, que predominou no fim da década passada. Como o vírus estava extinto, boa parte da população brasileira não teve contato com o tipo 1 da dengue e, por isso, não desenvolveu imunidade a ele.

No caso do Estado de São Paulo, um dos fatores que explicam o notável aumento de casos notificados é a epidemia registrada em municípios da Baixada Santista neste ano. Apesar do grande aumento de casos, São Paulo não foi incluído na lista dos Estados considerados com "risco muito alto de epidemia", da qual fazem parte Amazonas, Amapá, Maranhão, Ceará, Piauí, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Bahia e Rio de Janeiro.

Estudos do Ministério da Saúde indicam que os principais fatores causadores da doença variam de acordo com a região do País. No Norte e no Nordeste, a proliferação de criadouros do mosquito se deve à falta de água encanada, que obriga a população a armazenar água em recipientes inadequados. No Centro-Oeste, o principal fator é a falta de coleta regular de lixo. No Sul e no Sudeste, são os depósitos de água parada nas residências, como vasos de plantas, garrafas vazias, pneus velhos e piscinas malconservadas.

Por isso, além da atenta vigilância das autoridades, o combate à dengue exige também a participação da população, que deve adotar medidas que evitem a proliferação do mosquito transmissor da doença. No mesmo dia em que divulgou os dados mais recentes sobre a ocorrência de casos de dengue, o Ministério da Saúde lançou uma nova campanha de combate à doença, com a mensagem "Dengue: se você agir, podemos evitar".

Ações desse tipo são essenciais para conscientizar a população sobre os riscos da doença e, principalmente, sobre a importância das pequenas ações que ela pode desenvolver para conter o alastramento da dengue. Há um ano, o governo lançara uma campanha semelhante, com o lema "Brasil unido contra a dengue". Ela incluiu caravanas, lideradas pelo ministro da Saúde, a diversos Estados, para divulgar a campanha à população e obter a adesão das autoridades locais ao programa de combate à dengue.

O aumento excepcional do número de casos da doença, no entanto, mostra que não houve um esforço generalizado contra a dengue. O surto de 2008 mobilizou autoridades e a população, o que resultou em ações efetivas que propiciaram a redução expressiva do número de casos em 2009. O País não precisa de outro surto para voltar a combater a dengue com eficácia. Precisa de autoridades dispostas a conduzir esse combate.

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