A expansão do ensino privado

Enquanto as universidades públicas continuam com um futuro indefinido, pois resistem à adoção de novos modelos de financiamento e dependem de um polêmico projeto de reforma que se arrasta há três anos no Congresso, as universidades particulares passam por um período de grandes transformações. Criadas a partir de escolas de ensino básico e cursinhos de preparação para vestibular, profissionalizaram sua gestão e agora estão buscando sócios no exterior, associando-se a fundos de investimento ou abrindo capital. Assim como frigoríficos, produtores de etanol, construtoras e shopping centers, setores estreantes na Bovespa, essas universidades também querem captar recursos na bolsa para financiar seus planos de expansão.Atualmente, o País tem 4,5 milhões de estudantes universitários, um número considerado pequeno levando-se em conta a população de 188 milhões de pessoas. Mas, mesmo assim, as universidades particulares estão otimistas. No começo da década, elas foram favorecidas pela prioridade que o governo do presidente Fernando Henrique deu ao ensino básico, o que resultou numa significativa elevação do número de formandos do ensino médio que acarretou um aumento da demanda de ensino superior. E, em 2005, as universidades privadas foram beneficiadas pela criação do ProUni, o programa do governo Lula que concede bolsas a alunos de baixa renda. Além disso, as universidades privadas, que respondem por 75% das vagas do ensino superior, têm muito a ganhar com outra importante iniciativa do governo. Apenas 20% dos jovens brasileiros com idade entre 18 e 24 anos estão matriculados em cursos universitários. Entre seus vários objetivos, o "PAC da Educação", lançado em março, pretende aumentar esse índice para 30%, até 2010. Embora o nível médio de renda dos estudantes que serão favorecidos por esse plano seja baixo, ele é decisivo para o futuro dos empresários do setor educacional. É por isso que, a exemplo do que já ocorreu em outras áreas da economia, o setor educacional vem passando por um intenso processo de fusões e incorporações. Sem escala para sobreviver num mercado cada vez mais competitivo e sem recursos para investir na construção de novas unidades, na modernização de laboratórios, em treinamento a distância e em preparação de material didático, as pequenas faculdades e universidades privadas estão sendo adquiridas pelas instituições de maior porte, como a Unip, de São Paulo, a Estácio de Sá, do Rio de Janeiro, e a Rede Pitágoras, de Belo Horizonte e de propriedade do ministro Walfrido dos Mares Guia. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, em 2006 o País contava com 2.398 instituições de ensino superior, sendo 2.141 de capital privado. Esse número tende a cair. O faturamento das faculdades e universidades particulares é estimado em cerca de R$ 15 bilhões e, para aumentar sua participação nesse mercado, os grandes grupos educacionais têm de se expandir, adquirindo os concorrentes de menor porte. Em busca de capital para poder fazer essas aquisições, três corporações do setor de ensino - a Estácio de Sá, a Anhangüera Educacional e a Rede Pitágoras - captaram cerca de R$ 1,2 bilhão nos últimos meses, por meio do lançamento de títulos, participação acionária de bancos de investimento e aportes de fundos de private equity, que preparam as empresas para o crescimento, profissionalizam sua gestão e implementam projetos de governança administrativa. Sediada em Ribeirão Preto, a rede COC já ajustou seu estatuto às regras do nível 2 de governança da Bovespa. Recentemente, a Faculdade Jorge Amado, em Salvador, vendeu 60% de seu capital a um grupo de investidores americanos. Dois grandes fundos, um deles dirigido pelo ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, compraram 30% de uma faculdade de Fortaleza.Desde 1999, quando o governo permitiu que as instituições de ensino superior tivessem fim lucrativo, o setor educacional passa por uma verdadeira revolução. Desde que haja controle sobre a qualidade do ensino oferecido pelas universidades particulares, o País só tem a ganhar com isso.

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