A face oculta da China

A súbita erupção de violência entre uigures e hans, na desértica região de Xinjiang, no extremo oeste da China, configura o mais sangrento conflito étnico a explodir no país em décadas, deixando pelo menos uma centena e meia de mortos e um milhar de feridos, entre domingo e ontem. Vistos do Ocidente, os choques chamam a atenção antes de tudo por revelar quão pouco ainda se sabe do "planeta chinês", com o seu 1,3 bilhão de habitantes, ou 20% da população humana, e 55 etnias, ocupando o segundo mais extenso território do mundo (depois da Rússia). E isso depois de quase duas décadas em que o eixo econômico do globo vem se deslocando inexoravelmente para o colosso chinês, com as suas assombrosas e continuadas taxas de crescimento. Simbolizada pela épica montagem dos Jogos Olímpicos de Pequim, no ano passado, e ilustrada pelo cosmopolitismo da paisagem e da vida cotidiana dos seus formidáveis conglomerados, como Xangai e Chongqing, além da capital, naturalmente, o grande salto para a frente da China - numa escala com a qual nem mesmo o megalomaníaco Mao Zedong teria ousado sonhar - ofusca uma outra realidade que coexiste com essa modernização inaudita. É o primitivismo das relações sociais no que se poderia chamar a China profunda, cujo atraso é agravado pela brutalidade com que o regime ditatorial impõe as suas políticas e reprime os protestos daqueles que elas deliberadamente prejudicam. A persistência do vasto substrato arcaico chinês parece desafiar os conhecimentos dos sinólogos e mergulha em perplexidade o público do lado de cá da Grande Muralha, ao se deparar com as perturbadoras imagens dos telejornais da terça-feira. Armados de paus, tacos, canos, barras de ferro, tijolos, facões e machados, hordas de hans - o grupo étnico a que pertencem 9 em cada 10 chineses - percorriam o centro de Urumqi, a capital de Xinjiang, sob os aplausos do povão, prontos para executar um pogrom de uigures, a minoria nacional de religião muçulmana que representa, porém, cerca da metade dos 20 milhões de habitantes dessa região árida e, para os padrões chineses, pouco povoada.Eles bradavam por vingança pela morte de um indeterminado número de hans, dois dias antes, quando os choques irromperam. A violência, por sinal, começou longe dali, numa briga entre trabalhadores de uma fábrica de brinquedos em Cantão, no sudeste do país. Indignados com o que teria sido a leniência da polícia no incidente em que dois dos seus foram mortos, os uigures saíram às ruas de Urumqi, atacando civis hans e enfrentando a furiosa repressão das forças paramilitares. Na raiz da revolta está a relação "de colonizador para colonizado" entre os hans e uigures de Xinjiang, na avaliação de um sinólogo da Human Rights Watch. De fato, desde que o governo chinês resolveu povoar a região rica em gás, promovendo migrações maciças de hans das áreas mais habitadas, a discriminação contra os uigures se acentuou. A mudança demográfica, por si, teve dimensões tipicamente chinesas. Em um par de décadas, a população han quadruplicou, atraída pelos melhores empregos, moradias e demais meios de ascensão social que as autoridades lhe ofereciam. Ao mesmo tempo, intensificaram-se as restrições à prática do islamismo - funcionários públicos, por exemplo, são proibidos de exercê-lo e os trabalhadores são impedidos de jejuar no Ramadan. Além disso, o idioma uigur vem sendo substituído nas salas de aula pelo mandarim. A repressão cultural aos uigures fez escola. Segundo especialistas citados pelo New York Times, foram as políticas linha-dura do secretário do Partido Comunista na região, Wang Lequan, de etnia han, que inspiraram ações do gênero contra outras minorias, como no Tibete.Sintomaticamente, da mesma forma que culpa o Dalai Lama, exilado na Índia, pelos conflitos tibetanos, Pequim acusa uma uigur, a empresária e ex-prisioneira política Rebiya Kadeer, que vive em Washington, de ter sido a instigadora dos distúrbios. A imprensa oficial, por sua vez, bate na tecla de que os uigures são "cruéis" e ainda "ingratos" (por estarem dispensados de obedecer à norma de um casal, um filho). De todo modo, o regime leva a crise a sério, a ponto de o presidente Hu Jintao, que estava na Itália para a reunião do G-8, voltar subitamente ao país.

, O Estadao de S.Paulo

09 de julho de 2009 | 00h00

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