A falácia do voto útil e a defesa do voto autêntico

O sufrágio mais racional é a melhor forma de imprimir novos valores à política

ALEXANDRE NAGHIRNIAC E CARLOS LOPES, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2018 | 03h00

Há tempos não tínhamos uma eleição tão disputada e incerta. Por isso a política tem permeado as rodas de conversa. O descontentamento com a política tradicional e o desconforto com a situação econômica e social do País impulsionam um forte desejo de mudança dos eleitores, seja na esperança de resgatar a bonança econômica da década passada ou de acabar com a corrupção, tida como a principal causa da ineficiência dos serviços públicos.

A eleição presidencial de 2018, que terá o maior número de candidatos em 29 anos, parece indefinida. Tem sido comum ouvir o argumento de que votar em alguém que não tem chances de ir para o segundo turno equivale a jogar o voto fora. Ou de que é melhor votar em determinado candidato, em vez do de sua preferência, para evitar um embate indesejado no segundo turno. Essa forma de pensar está por trás do conceito conhecido como “voto útil”, ou “voto tático”.

Individualmente, pensar no nosso voto como algo que pode fazer a diferença não é racional, afinal, nem o simples ato de votar o é. Em 1957, o economista político Anthony Downs procurou descrever a racionalidade por trás do voto. Hoje, com base em seus estudos, descreve-se a motivação racional para votar como o benefício esperado do voto - ou o benefício do resultado do pleito para um eleitor ponderado pela probabilidade de seu voto alterar o resultado -, somado a um certo senso de dever cívico do eleitor, menos os custos de votar.

Com 147 milhões de eleitores aptos ao sufrágio este ano, a probabilidade de um único voto fazer a diferença é desprezível. Além disso, há custos associados ao voto, como deslocamento, filas ou mesmo a oportunidade de usar o mesmo tempo para outras coisas. Como um único voto é insignificante numa eleição ampla, o benefício esperado para cada eleitor também é teoricamente nulo, enquanto os custos são significativos.

A experiência mostra, por exemplo, que o comparecimento é maior em disputas apertadas (efeito competição), nas quais o eleitorado sente ter um papel mais importante na influência do pleito em determinada direção.

O raciocínio do voto útil é justamente esse. Aceita-se a escolha de um candidato pior do que aquele visto como ideal com o objetivo de influenciar o resultado.

A ciência política mostra evidências empíricas de que há um comportamento estratégico dos eleitores em diversas eleições e que os resultados são compatíveis com o previsto por modelos de votação estratégica. A decisão particular de agir estrategicamente, quando agregada, acaba dando efetividade à teoria do voto útil, porém levando a resultados muitas vezes piores do que os que seriam atingidos caso todos votassem de acordo com suas preferências originais.

Quando a sociedade deixa em segundo plano a reflexão sobre qual é o candidato que melhor a representa, acaba por reforçar a classe política tradicional e a manutenção do status quo. Algumas observações sobre o voto útil dão suporte a esse argumento.

Primeiro, é um voto imediatista. Quem vota dessa forma tem o foco exclusivamente na eleição em questão, subestimando seus diferentes efeitos no longo prazo. Entretanto, eles existem. Não é por acaso que, mesmo após inúmeros escândalos de corrupção, a política continue sendo conduzida pelos mesmos políticos, pelos mesmos grupos, pelos mesmos sobrenomes. O imediatismo enfraquece o processo de renovação política ao ser um incentivo para que partidos indiquem nomes conhecidos, uma vez que esses têm maior possibilidade de capturar o voto útil.

O objetivo do voto não pode ser unicamente o de eleger. Cada voto recebido serve de motivação para que o receptor continue defendendo as suas ideias. Quando agregado, o voto autêntico dá maior notoriedade àquele com quem as pessoas se identificam, favorecendo sua posição numa eleição futura.

Outra característica do voto útil é que ele é defensivo, dado a alguém que não era inicialmente a opção preferida. Ou seja, escolhe-se o nome com mais chances de vencer, e não o que tem as propostas mais alinhadas com a sua preferência. Isso enfraquece o debate sobre as agendas de governo, dificultando a cobrança da sociedade sobre as realizações do candidato durante o eventual mandato.

Sabendo disso, o objetivo do político tradicional é subir nas pesquisas rapidamente no início da eleição, pois isso lhe possibilita capturar parte do voto útil. Dessa forma, sobram propostas rasas e impraticáveis, ataques levianos a adversários e discursos demagógicos. Propostas reais e concretas são pouco discutidas, o que reduz substancialmente o compromisso dos candidatos eleitos com suas promessas de campanha. Além disso, um candidato eleito com base em apenas uma bandeira ou proposta superficial, ao chegar ao poder, não tem legitimidade para aprovar as reformas que de fato são necessárias para o País, pois não teve um diálogo claro e honesto com o seu eleitor.

Quem está descontente com o provável resultado da eleição promove o voto útil como saída, mas pode ser vítima da própria tática ao longo do tempo.

Se quem adota o voto tático o faz por acreditar que pode fazer a diferença positiva nos resultados, deveria pesar esses outros impactos em sua estratégia. É verdade que a insignificância de um único voto pode limitar esses efeitos benéficos do voto autêntico em longo prazo. Por isso a opção pelo voto autêntico deve ser amplamente propagada e defendida por aqueles que por ele se decidirem, de forma a influenciarem outros eleitores nessa mesma direção. A conscientização dos eleitores quanto a seus potenciais benefícios permitiria, aos poucos, desconstruirmos a falácia do voto útil.

O voto autêntico é a decisão mais racional a tomar e a melhor forma de imprimir novos valores à política.

*RESPECTIVAMENTE, CONSULTOR INDEPENDENTE COM MBA NA HARVARD BUSINESS SCHOOL 

E ECONOMISTA DO BANCO VOTORANTIM, MESTRE EM ECONOMIA PELO INSPER

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