A falta de órgãos e o futuro dos transplantes

A rapidez com que o progresso tecnológico vem determinando mudanças na prática médica e, por conseguinte, na assistência pública da saúde estimula novas estratégias dos órgãos por ela responsáveis. A evolução da tecnologia do transplante de órgãos representa um bom exemplo desse progresso exponencial e o Ministério da Saúde tem adotado iniciativas inéditas para acompanhá-lo. Ao mesmo tempo que dirige esforços para desenvolver e ampliar para todo o País nossa infraestrutura transplantadora atual, induz e apoia iniciativas capazes de desenvolver as bases para aplicação dos surpreendentes progressos previstos para o setor num futuro próximo.

Silvano Raia, O Estado de S.Paulo

24 Março 2012 | 03h03

Desde seu início, na década de 1970, o transplante de órgãos vem adquirindo importância progressivamente maior no tratamento de pacientes com doenças em fase avançada de rim, fígado, pâncreas, coração, pulmão e intestino que, de outra forma, evoluiriam para óbito em curto período de tempo. Infelizmente, porém, o número de candidatos supera em muito o de procedimentos realizados. No Brasil, apesar de termos o maior programa público de transplantes do mundo, são atendidos apenas pouco mais de 30% da necessidade teórica estimada (100 transplantes por milhão de habitantes por ano).

A falta de órgãos representa o fator limitante principal. Seu número depende de uma série de variáveis, que vão da qualidade da assistência pública nas urgências até a decisão da família de autorizar a doação. Mesmo nos países com tecnologia já sedimentada, capaz de superar outras dificuldades, a falta de órgãos persiste como o nó górdio da questão. Na última década, o número de candidatos a transplante dobrou nos EUA, enquanto o número de procedimentos realizados foi apenas um pouco maior. Na Inglaterra, no mesmo período, o número de inscritos na lista de espera para transplante de fígado também apresentou aumento de 100%.

Nos últimos anos, vários fatores têm contribuído para aumentar a discrepância entre oferta e necessidade de órgãos, diminuindo a primeira e elevando a segunda. De um lado, a expectativa de vida cada vez maior e um melhor atendimento dos pacientes com doenças crônicas, particularmente pelo aperfeiçoamento da tecnologia da hemodiálise, permitem que mais pacientes atinjam a fase de indicação, aumentando a demanda. Por outro lado, esses mesmos fatores tendem a diminuir a oferta, seja pelo melhor tratamento e recuperação de potenciais doadores, seja pela redução da violência na idade mais avançada.

Além disso, no Brasil, o esforço de levar para Estados do Norte e do Nordeste o benefício do transplante de órgãos tem se deparado com uma dificuldade inesperada: o elevado índice de recusa familiar. Em centros já estruturados no País e no exterior, a recusa oscila ao redor de 30%, enquanto em alguns Estados, como Maranhão, Bahia, Sergipe e Goiás, esse índice ultrapassa os 60% (RBT 2011). Abordagem inadequada, raízes culturais e desinformação têm sido interpretadas como causas dessa disparidade.

Diante desse cenário, ganham particular importância progressos recentes no campo da medicina regenerativa capazes de aumentar a disponibilidade de órgãos para transplante. Destacam-se a perfusão ex vivo do órgão antes do implante, a fim de resgatar e transplantar órgãos ditos marginais que atualmente são descartados, e a produção de órgãos modificados, que pretende aproveitar órgãos hoje nem sequer considerados para transplante.

O primeiro consiste em perfundir ex vivo, durante seis a oito horas, o órgão a ser transplantado com soluções capazes de determinar a regressão de lesões, isquêmicas ou de outro tipo, ocorridas durante a captação. Vale salientar que atualmente, no Brasil, são descartados por essa razão cerca de 30% dos órgãos captados.

O segundo consiste em descelularizar órgãos de doadores que morreram de causa cardiorrespiratória (coração parado) e, portanto, com lesões isquêmicas irrecuperáveis. Inicialmente, retiram-se as células do órgão (descelularização), isolando sua matriz, que a seguir é recelularizada com células do órgão correspondente do receptor multiplicadas in vitro. Além de pôr à disposição um número muito maior de órgãos, já que permite aproveitar doadores falecidos por qualquer causa, o novo método confere-lhes uma particularidade sobremaneira importante, que é a de não causar rejeição, uma vez que são constituídos por células do próprio receptor.

Diante dessas perspectivas e do novo cenário que determinam, a atual gestão do Ministério da Saúde adotou as seguintes iniciativas:

Capacitar novas equipes de captação e transplante nos 16 Estados, com 60 milhões de habitantes, que ainda não realizam regularmente esse procedimento (polos-alvo). A capacitação é feita por cursos locais, estágios em centros nacionais com tecnologia já sedimentada e envio de técnicos experientes para coordenar in loco a atuação inicial dos profissionais recém-capacitados;

Apoiar campanhas de estímulo à doação por meio de veículos educativos itinerantes pelos bairros menos assistidos dos polos-alvo;

Criar um centro de referência universitário reunindo pesquisadores em regeneração celular e equipes de transplante de diferentes órgãos para desenvolvimento das novas tecnologias;

Destinar recursos para financiamento de projetos de pesquisa apresentados pelos centros transplantadores mais experientes do País, visando a criar uma Rede Nacional de Pesquisa em Medicina Regenerativa e Transplante;

Estimular e apoiar a repatriação de pesquisadores brasileiros atualmente trabalhando no exterior e contratar assessores em centros que aí estejam desenvolvendo a nova tecnologia.

Assim fazendo, pretende-se criar condições para que, também após a revolução tecnológica que se anuncia, o transplante de órgãos no Brasil mantenha a sua atual posição de primeiro plano no cenário internacional da especialidade.

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