A falta do coletivo

Estive recentemente numa conferência internacional em Cuzco, no Peru. Entre as maravilhas dos incas, suas trilhas perfeitas pelas montanhas e as ruínas que nos permitem vislumbrar aquela civilização avançada, discutiu-se como o mundo está cada vez mais conectado e quais políticas globais fazem falta (muitas). Pensar em como melhorar a arquitetura financeira internacional - e a inserção do Brasil - fez bem. Mas a volta foi dura: tanto a realidade no Brasil, com as dificuldades na recuperação da economia, quanto no mundo, com o conflito em Israel, que me aflige.

Ilan Goldfajn, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2014 | 02h04

Neste mundo cada vez mais interconectado, cada país essencialmente parece só. Na economia, apesar de todo o arcabouço existente, políticas econômicas são desenhadas mirando o interesse nacional. O impacto nos outros países fica em segundo plano.

Um exemplo relevante é a premente decisão do Fed, o banco central norte-americano, sobre quando elevar os juros, que hoje estão nas mínimas históricas, em zero. Essa decisão é soberana. Será definida pelos dados econômicos nos EUA (não no resto do mundo), como o desemprego, que está caindo, e a expectativa de inflação ainda baixa. A subida dos juros ocorrerá quando ficar mais claro para o Fed que a economia dos EUA saiu da longa estagnação iniciada na crise de 2007-2008. Tudo indica que será levada a efeito no ano que vem. Mas a subida de juros sinalizará simultaneamente que a época de dinheiro barato e fluxos de capitais abundantes estará no seu fim. Os fluxos de capitais mudarão de direção e afetarão os outros países. Sem decidir quando, cada país precisará lidar com a pressão de depreciação, inflação e juros mais altos na sua economia. A política é local, mas suas consequências são globais.

De certa forma, os interesses não estão completamente desalinhados. Uma política adequada do Fed permitirá à economia americana crescer de maneira segura e, ao mesmo tempo, evitar riscos financeiros, como bolhas em alguns ativos. O mundo deve beneficiar-se do crescimento dos EUA e do risco financeiro menor. Mas permanece a preocupação o impacto nas outras economias no momento da reversão da direção dos fluxos de capital. Estarão todos os países preparados para isso? Na semana passada o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou um relatório analisando o impacto de um choque externo em 29 países. O impacto não será igual em todas as economias e nem todas estão preparadas.

Seria mais fácil se houvesse um arcabouço internacional que permitisse aos países se coordenarem em momentos de necessidade, financiando os que precisam de liquidez, permitindo suavizar o choque. O FMI, na sua composição atual, não tem ainda a agilidade necessária nem os recursos para essa tarefa (não é um emprestador de última instância, como os bancos centrais). Na crise de 2008 coube ao Fed decidir quem teria liquidez, por meio de suas linhas de swap com alguns poucos bancos centrais (o Brasil inclusive). Mas é necessário algo mais organizado, multilateral.

Hoje em dia cada país se defende montando seu arsenal, acumulando reservas internacionais para serem usadas em caso de crise. Quando há choques e saídas de capital, a venda de reservas suaviza o impacto na economia. O acúmulo de reservas é o sinal da falta de confiança numa resolução coletiva, num arcabouço internacional.

Mas todos armam a sua defesa e o resultado coletivo é pior. A busca por reservas - basicamente ativos líquidos e seguros - é exagerada, pelo menos do ponto de vista coletivo. A intensa busca por ativos internacionais considerados sem risco (como os títulos do Tesouro norte-americano) eleva muito o seu preço. Países pagam para terem reservas, para guardarem seus arsenais.

A reciclagem desses recursos de volta para financiamento de atividades produtivas é imperfeita. Há "empoçamento" de liquidez. Os recursos não fluem com facilidade e segurança (muito concentrados no curto prazo) dos que poupam para aqueles que precisam de financiamento para investir. Portanto, suspeito que o potencial de crescimento no mundo deva sofrer com essa versão moderna do "mercantilismo".

Sofre também a flutuação do câmbio. As flutuações puras são raras. Muitas economias intervêm direta ou indiretamente na sua taxa de câmbio. Existem explicações alternativas para esse fenômeno. Alguns acreditam que o que está ocorrendo seja um conflito entre as economias, conhecido por vários nomes, como desvalorizações competitivas, "rouba-monte" ou "guerras cambiais". Um câmbio mais competitivo leva a ganhos de mercado e tenderia a aquecer a economia de um país à custa das demais. Outros acreditam que apenas ocorra uma falta de sincronização. O movimento nas taxas de câmbio é somente consequência de outras políticas, como as políticas monetárias domésticas, que buscam alcançar a meta de inflação, com pleno emprego.

Uma outra explicação, mais comum em economias emergentes, é que os bancos centrais têm a preocupação de acumular reservas em momentos de bonança para usá-las quando há escassez. Para isso precisam intervir. Compram dólares quando há excesso e vendem quando falta. O regime de câmbio intermediário vem dessa intervenção.

Um mecanismo internacional que de fato permita suavizar o choque entre os países, atuando como um efetivo mecanismo de emprestador de última instância, poderia reduzir a insegurança coletiva atual. Só assim seria possível diminuir a necessidade de acúmulo de reservas, o mecanismo mais claro do mercantilismo moderno. Com isso as distorções no mercado financeiro internacional poderiam diminuir e o potencial de crescimento no mundo, aumentar. Enquanto essa realidade não chega, o recomendável é manter a economia em ordem e preparar-se para o próximo choque internacional, que pode ocorrer já no próximo ano.

Ilan Goldfajn é economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco

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