A fanática visão única

A indignação e o pranto não bastam como resposta ao terror do chamado Estado Islâmico. Tampouco os bombardeios da aviação francesa aos núcleos terroristas, em retaliação aos atentados em Paris na sexta-feira 13. As medidas de segurança e autodefesa tomadas pela França são necessárias e imprescindíveis, mas apenas mitigam a insânia do terror como paliativo – diminuem a febre sem extirpar o tumor nem curar a enfermidade.

FLÁVIO TAVARES, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2015 | 02h55

O “Estado Islâmico” nem Estado é, mas apenas um aglomerado imenso de fanáticos religiosos que, em 2004, ocuparam territórios no Iraque e na Síria e se autoproclamaram como califado. Expandiram-se no caos do totalitarismo árabe. Complacentes, as grandes potências ocidentais os viram como alternativa para derrubar as ditaduras da Líbia e da Síria e, até, lhes deram armas. Hoje a vasta seita impermeável e rude invoca preceitos do Islã e, em nome de Alá, mata, escraviza, destrói populações inteiras e dinamita monumentos da História.

Se nada disso basta, o que fazer? Não há fórmulas mágicas, menos ainda agora. Mas a violência jamais se resolverá se não atentarmos para o que é o Islã e como, dentro dele, se comportam até mesmo os que repudiam o terror.

O fanatismo dos terroristas do Islã crê ter raízes no seu próprio Profeta.

Como chefe religioso, Maomé foi um guerreiro. Não se limitou a pregar pela palavra e pelo exemplo, como Cristo, seis séculos antes. Nem guiou o povo pelo deserto, em meio à fome, como Moisés. Nem teve na piedade o preceito fundamental, como o budismo.

Maomé lutou de armas na mão contra os idólatras, teve exércitos. Com eles, o islamismo triunfou e se implantou pela força (não só pelo convencimento) em batalhas, em luta à espada, decepando cabeças e tendo cabeças decepadas. Agora, 15 séculos depois, o Estado Islâmico copia tudo ipsis litteris. E com a tecnologia do século 21 filma cenas do século 7.º: a espada degolando os “infiéis” em nome de Alá. A degola modernizada, em fila, como linha de montagem industrial.

Essa “teologia do terror” que festeja a morte faz esquecer, até, o que as antigas civilizações árabes transmitiram ao mundo, antes e após Maomé. Os árabes nos legaram, por exemplo, o “fator zero”, que a Europa desconhecia. A aritmética e a matemática deram o maior salto da História: substituíram-se os números romanos, que eram letras, por algarismos de 1 a 9, acrescidos do “fator zero”. Só então a química e a física se desenvolveram como ciência.

Pode-se alegar que essa “teologia do terror” nasceu no cristianismo, com a Inquisição e as cruzadas. Mas a Igreja Católica renegou as fogueiras medievais e as apresentou como um criminoso desvio da fé cristã. Hoje, no século 21, sem fogueiras, espadas degolam ou fuzis e homens-bomba matam a esmo.

A religião, em si, não é culpada. A culpa vem da religiosidade fanática, sem amor nem ternura. São Josemaría Escrivá (santo do século 20) a interpretava como extensão do fetichismo e da superstição. Sim, pois o ventre do fanatismo é místico-religioso. A visão fanática provém do pensamento único de seita. “Deus fala e age somente por nós, que somos a verdade única.”

Na Inquisição, o terror não foi obra dos fiéis católicos nem da doutrina cristã, mas da burocracia eclesiástica. Hoje, não é o povo muçulmano que mata nem é o Islã que comete os atentados. Mas sem a rigidez ideológica do Islã não existiriam atentados nem terror em nome de Alá.

Todo fanatismo tem fundo religioso. O fanatismo político que criou os campos de extermínio de Hitler, Stalin ou Pol-Pot, ou o fanatismo no futebol, que mata o desconhecido torcedor adversário, têm seu nascedouro na visão da “verdade única”.

Os terroristas do Islã são impermeáveis por isso!

Nos longos debates que o canal internacional francês, TV 5 Monde, realizou em Paris nas 48 horas após a chacina, o grande especialista do terror islâmico Gilles Kepel lembrou um paradoxo: tudo se agigantou a partir de 1980, quando a CIA treinou e armou Bin Laden e seus grupos na luta contra a invasão e ocupação soviética no Afeganistão. Finda a “guerra fria”, no século atual, outro paradoxo: a complacência e o apoio inicial de países da Otan ao “califado” do Estado Islâmico para debilitar as ditaduras de Kadafi, na Líbia, e Bashar Assad, na Síria.

A tragédia maior, porém, talvez seja o choque cultural das migrações islâmicas, que continuam sem buscar adaptar-se à França, onde trabalham e vivem, acolhidos como iguais, e onde nasceram os filhos e netos. Há preconceitos de parte dos franceses? Claro que sim! A França os recebeu, mas eles não receberam a França e rejeitam seus valores.

Serão francesas ou europeias aquelas mulheres que, nas ruas de Paris, Madri ou Berlim, cobrem o rosto com a burca e deixam aparecer só os olhos? Por que os submetidos à interpretação grotesca do Corão veem “a peçonha da serpente” no corpo feminino?

E por que não há “preconceito” coontra portugueses, espanhóis, eslavos e outros imigrantes? Manuel Valls, atual primeiro-ministro, é neto de refugiados espanhóis. O ex-presidente Nicolas Sarkozy (antes, ministro do Interior) é filho de húngaros.

Dos três terroristas autores do massacre no teatro-café Bataclan, diz-se que dois “são franceses”, o que soa como engano e erro em si mesmo. De fato, nasceram na França, mas não são franceses. Só a burocracia do registro civil os toma como tal. Nem eles próprios se julgam franceses nem vivem os valores que a França deu ao mundo na Revolução de 1793.

Mundo afora, as comunidades islâmicas se mostram contrárias à violência. Mas o que fizeram internamente no Islã como remédio ou obstáculo ao terror? Enquanto só existirem palavras, sem atos concretos, persistirá a visão abjeta com que os terroristas do Estado Islâmico festejaram – com palavras – a chacina de Paris: “A glória e o mérito pertencem a Alá”.

* FLÁVIO TAVARES É JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA ANOS 2000 E 2004

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