A faxina não pode parar

A varrição em curso no Ministério dos Transportes ganhou proporções políticas novas com a decisão da presidente Dilma Rousseff de incluir entre os exonerados funcionários cujos nomes não tinham aparecido na sequência de prováveis casos de corrupção levantados pela imprensa. Desse modo, a presidente não apenas sinaliza que deixa de estar a reboque do noticiário, como assinala a intenção de reaver o controle da pasta e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), com seu orçamento de R$ 15,5 bilhões, que o antecessor Lula entregou gostosamente aos cuidados do PR, no bojo de transações políticas espúrias que precederam até a sua primeira eleição.

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21 Julho 2011 | 01h04

A maioria dos demitidos, com efeito, devia seus empregos - com as avantajadas oportunidades neles embutidas - aos caciques da legenda, a começar do deputado mensaleiro Valdemar Costa Neto, secretário-geral da agremiação e dono de alentado prontuário. Outro patrono, naturalmente, era o então ministro e presidente do partido, Alfredo Nascimento. Para se ter ideia da lambança, um dos homens de Costa Neto, Frederico Augusto de Oliveira Dias, o "doutor Fred", assessor de Controle Processual do Dnit, não era funcionário efetivo nem comissionado do órgão - ou de qualquer repartição federal. Mas tinha sala própria, ao lado do gabinete do diretor-geral Luiz Antonio Pagot, equipe de funcionários e o poder de selecionar contratos para que tivessem o devido andamento.

A faxina nos Transportes não se limitará aos apaniguados do PR. A presidente deverá levar ao patíbulo o companheiro Hideraldo Caron, do PT gaúcho, diretor de Infraestrutura Rodoviária do Dnit. Uma obra a cargo do organismo, a duplicação de um trecho de 348 quilômetros entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, tem um histórico de 23 contratados assinados e 268 aditivos. O empreendimento, que já consumiu perto de R$ 2 bilhões, está cercado por suspeitas de irregularidades no Tribunal de Contas da União (TCU). Não está claro se o esperado afastamento de Caron é uma consequência natural de seu desempenho e dos ilícitos pelos quais possa ser responsabilizado ou se é uma tentativa de mostrar ao PR que o governo vai ao ponto de "cortar na própria carne" para moralizar o setor.

Golpeado como até há bem pouco os seus controladores não podiam imaginar, o partido quer que "haja a mesma balança para todos", diz o líder da sigla na Câmara, Lincoln Portella. Para não agravar o estrago, o que o partido quer é que os futuros ocupantes dos cargos perdidos pelo menos não tenham carteirinhas de outras agremiações. Quer que a presidente troque seis por meia dúzia, mantendo com novos nomes os velhos feudos da legenda. E quer que a devassa não vá ainda mais longe, atingindo os seus apadrinhados, por exemplo, nas superintendências regionais do Dnit. O prestígio dos padrinhos políticos, como se sabe, se constrói a partir das bases locais: é onde eles demonstram se têm ou se lhes falta capacidade de premiar lealdades. No caso, não é pouca coisa. Levantamento do jornal Valor revela que o PR se apropriou direta ou indiretamente de 16 das 27 diretorias regionais do Dnit.

A legenda não é a única a se queixar. O PT não ousa criticar em público a limpeza ética nos Transportes - que talvez represente o maior contraste, até aqui, entre a atual presidente e o antecessor que a escolheu. O máximo a que a sua gente chega é pedir que ela não humilhe o PR, mas se entenda com ele. Dado o objeto do entendimento, soa uma contradição em termos. Lula estaria receoso de que a frente governista no Congresso se vingue mais adiante de Dilma pelo "rito sumário" das demissões. Se essa é a razão do seu desconforto - e não a quebra do pacto da impunidade que armou com os aliados -, eis mais uma evidência de que, na sua visão rombuda da política, apoio ou se compra ou se perde; jamais se mantém pela persuasão e o traçado de limites para a barganha. De todo modo, depois do que já fez, Dilma só pode ir adiante. Qualquer outra atitude será percebida pela opinião pública como um recuo desmoralizante - e sem nenhum ganho à vista nas relações da presidente com a sua inquieta base parlamentar.

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