A fila tem que andar

Apesar da sucessão de escândalos comprovados, herança maldita que coloca Dilma Rousseff na iminência de ter que mandar para casa o sexto ministro envolvido em denúncias de corrupção, a chefe do governo tem logrado preservar - nem sempre com a desejável presteza - a imagem de governante suprema fiadora da moralidade da administração federal. E moralidade quer dizer, no caso, probidade na gestão da coisa pública, honestidade no trato do dinheiro que é de todos nós brasileiros. Mas não é o que pensa o "chefe de quadrilha", transformado em réu do processo do mensalão pela autoridade de um procurador-geral da República. José Dirceu proclama que tudo não passa de conspiração das elites contra os "interesses populares", como se o povo tivesse interesse em ser permanentemente roubado pelas ratazanas vorazes de quem o ex-ministro de Lula se apresenta como advogado.

O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2011 | 03h06

Ao participar, no último domingo, do 2.º Congresso da Juventude do PT, em Brasília, o ex-deputado federal cassado por seus pares em 2005 criticou duramente o que classificou de "luta moralista contra a corrupção". Em cinco palavras, atribuiu conotação pejorativa à indignação generalizada dos brasileiros contra as bandalheiras praticadas por políticos e agentes governamentais e proclamou que, afinal, a corrupção generalizada que atormenta o País não é tão grave assim. E ainda reservou palavras de estímulo às vítimas dos "moralistas" - os ministros demitidos por Dilma -, especialmente ao ex-titular do Esporte, Orlando Silva, ex-presidente da UNE, a quem recomendou "ânimo, força", e manifestou "afeto".

Dirceu revelou poder de persuasão, pelo menos diante de jovens contaminados pelo modo lulopetista de ver o mundo. O presidente da Juventude do PT, Valdemir Pascoal, discursou em tom de perfeita afinação com o pensamento de seu guru: "Não aceitamos o golpe (das elites). A juventude do PT está aqui para dizer que é tudo mentira". E condecorou o ídolo com uma camiseta cujos dizeres estampados o absolvem de todas as acusações que, se assim julgarem os ministros do STF, vão colocá-lo atrás das grades.

Se, como querem José Dirceu e os jovens petistas, "é tudo mentira", a presidente Dilma está, mais uma vez, na iminência de cometer uma "injustiça" e dar o bilhete azul para o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, que perdeu até mesmo o apoio incondicional de seu partido, o PDT, para permanecer à frente da pasta que dirige. Segundo fontes do Palácio do Planalto, a razão principal da hesitação de Dilma em relação à demissão de Lupi seria o fato de que foi possível preservar desde logo o apoio das legendas da base aliada a que pertenciam os demitidos - PMDB, PP, PTB e PC do B - porque as demissões foram negociadas com as respectivas lideranças partidárias. Lupi é, ele próprio, a grande liderança do PDT, de cuja presidência está formalmente licenciado, e tem demonstrado, apesar de todos os tropeços nesse episódio, um entranhado apego à cadeira de ministro. Mas, na última quarta-feira, depois de líderes pedetistas do Maranhão terem desmentido as declarações feitas por Lupi em sua defesa das acusações de ter voado em avião particular na companhia do dono de uma ONG beneficiada por convênios com a pasta do Trabalho, o próprio presidente interino do partido, o cearense André Figueiredo, aconselhou o ministro a deixar o cargo: "Como amigo do Lupi, sofro muito vendo ele sofrer. É muito doloroso. Como amigo, preferia que ele saísse. Mas isso é uma decisão que o PDT vai tomar de forma institucional". Por sua vez, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) também se manifestou favorável ao afastamento.

Como afirmamos em editorial de ontem, a presidente Dilma deixou passar duas oportunidades de demitir Carlos Lupi a um custo político aceitável. Mas o ministro continuou se enredando nas próprias mentiras e teve uma atuação desastrosa em seu depoimento ontem pela manhã perante a Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Agora, sem o apoio de seu próprio partido, Lupi certamente conta suas últimas horas na cadeira a que tanto se apega. Será o sexto ministro herdado do governo Lula e demitido por envolvimento em corrupção. Uma herança realmente maldita.

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