A fome na Venezuela

Dados sobre a falência do sistema de saúde e o crescimento acelerado da morte de crianças por fome são particularmente chocantes

O Estado de S.Paulo

19 Dezembro 2017 | 03h06

Há muito que notícias ruins vindas da Venezuela – que se afunda cada dia mais em grave crise econômica, social e política provocada pelo regime chavista – não constituem novidade. Viraram uma triste rotina. Mas os dados sobre a falência do sistema de saúde e o crescimento acelerado da morte de crianças por fome são particularmente chocantes. Esse é o lado mais cruel do drama vivido pelo país, ao qual o presidente Nicolás Maduro e sua entourage assistem impassíveis, preocupados apenas com a adoção de medidas destinadas a se perpetuarem no poder.

A reportagem do jornal The New York Times que descreve a situação foi minuciosamente preparada, ao longo dos últimos cinco meses, com acompanhamento do dia a dia de 21 hospitais públicos de 17 Estados e entrevistas com médicos que descrevem salas de emergência cheias de crianças com desnutrição grave. Um quadro semelhante ao dos campos de refugiados, segundo o presidente da Sociedade Venezuelana de Pediatria, Huníades Urbina Medina. Pais de famílias de baixa renda deixam de comer para dar aos filhos a pouca alimentação que conseguem, muitas vezes vasculhando latas de lixo, em meio à penúria que só poupa os privilegiados militantes do chavismo, que têm prioridade na distribuição dos cartões de racionamento.

O resultado desse quadro desolador – em que crianças chegam aos hospitais com o mesmo peso de recém-nascidos, segundo depoimentos de médicos – está expresso nas estatísticas macabras que o Ministério da Saúde deixou escapar, apesar da vigilância do governo, que em represália demitiu a ministra, Antonieta Caporale. Em 2016, morreram 11.446 crianças com menos de 1 ano de idade, um aumento de 30% em um ano. No último ano, foram registrados 2,8 mil casos de desnutrição infantil. Dessas crianças, morreram 400. A taxa de mortalidade de crianças com menos de quatro semanas aumentou 100 vezes entre 2012 e 2015. Um número crescente de mulheres procura clínicas que fazem esterilização para evitar dar à luz bebês que não podem alimentar.

Foi a essa catástrofe social, regida por uma ditadura cada vez mais escancarada, que levou “o socialismo do século 21” prometido pelo delirante “bolivarianismo” do ex-presidente Hugo Chávez, continuado por Nicolás Maduro, e que ainda merece aplausos do PT e de Lula da Silva. O pior é que no único setor em que consegue se sair bem – o da adoção de medidas para silenciar a oposição e se perpetuar no poder – Maduro está a todo vapor. Depois de neutralizar a Assembleia Nacional, na qual a oposição tem maioria, por meio da eleição de cartas marcadas de uma dócil Assembleia Nacional Constituinte, que absorveu seus poderes, o presidente e seus acólitos vêm tomando novas medidas para ao mesmo tempo endurecer ainda mais o regime e fazê-lo durar indefinidamente.

Em eleição feita sob medida para atender a seus interesses – por isso contestada pela oposição –, da qual participaram apenas 47,32% dos eleitores, Maduro foi vencedor em 92% dos municípios, um número que lembra irresistivelmente o das “vitórias” só possíveis em ditaduras.

Imediatamente, tomando como pretexto o fato de eles terem se recusado a participar da farsa da eleição municipal, Maduro anunciou a exclusão dos três principais partidos da oposição da disputa presidencial do próximo ano: “Esse foi o critério que a Assembleia Nacional Constituinte (composta apenas por partidários do regime) estipulou”. Ficarão fora da disputa os únicos oposicionistas que poderiam vencer Maduro: Leopoldo López, do partido Vontade Popular (VP); Henrique Capriles, do Primeiro Justiça (PJ); e Henry Ramos Allup, do Ação Democrática (AD). “Eles desaparecerão do mapa político”, disse Maduro.

Com isso, ele fecha mais uma possível porta de saída política para a profunda crise em que está mergulhado o país, com crianças morrendo de fome, inflação de 2.000% ao ano e repressão cada vez mais violenta de todos os que ousam contestar o regime. Nada de bom pode esperar a Venezuela da enrascada em que a meteu o chavismo.

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