A força da empulhação

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, deve vencer a eleição que se realizará neste domingo com enorme facilidade, porque de eleição não se trata, e sim de um mero simulacro

O Estado de S.Paulo

21 Maio 2018 | 03h00

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, deve vencer a eleição que se realizará neste domingo com enorme facilidade, porque de eleição não se trata, e sim de um mero simulacro para dar um verniz de legitimidade a seu regime de exceção. Fosse a Venezuela um país normal, qualquer governante sob cuja administração o PIB caísse quase à metade em quatro anos seria escorraçado nas urnas, para nunca mais voltar. Mas Maduro permanecerá no poder porque investiu pesadamente em mistificação, a única mercadoria que abunda em meio à escassez generalizada na Venezuela.

A força da empulhação chavista pode ser medida pela disposição de venezuelanos que, a despeito da realidade, pretendem votar em Maduro. É o caso do operário desempregado Juan Rudá, entrevistado em reportagem do Estado sobre a situação no país. Aos 53 anos, Rudá está há quatro meses sem trabalho e ficaria satisfeito se conseguisse uma vaga que lhe pagasse cerca de 40 mil bolívares por dia – o equivalente a US$ 0,05. O venezuelano diz que seu objetivo não é a remuneração, pois sabe que esse valor não pagaria nem suas despesas para ir ao trabalho, mas sim “manter a autoestima e o respeito dos cinco filhos”.

Mesmo assim, Rudá, que vive dos minguados subsídios oferecidos pelo governo, declarou que votará em Maduro. Ele disse acreditar que o país está na penúria porque é vítima de uma “guerra econômica”, que, segundo a propaganda do regime, é travada pelos “imperialistas americanos”, dispostos a controlar o petróleo local, e pelos empresários que escondem mercadorias para revendê-las no mercado paralelo. Ou seja, para o eleitor de Maduro, nada do que está acontecendo na Venezuela é resultado do “socialismo do século 21”, que destruiu os fundamentos econômicos e a estrutura produtiva do país. Conforme o discurso chavista, tudo é responsabilidade de uma elite internacional que não se conforma com uma política econômica e social que privilegia os mais pobres.

Qualquer semelhança com a tapeação lulopetista não é mera coincidência. Aqui, como se sabe, os adoradores da seita de Lula da Silva atribuem ao advento dos governos do PT a alardeada redenção dos miseráveis, como se as condições para a implementação de políticas redistributivas naquela oportunidade tivessem sido criadas do nada. Depois, quando a crise sobreveio, como consequência dos erros grosseiros cometidos pelos campeões da irresponsabilidade fiscal, a tigrada tratou de atribuir todas as agruras a uma conspiração das “elites” – que incluiu até mesmo a CIA. O próprio Lula se disse “convencido” de que “os americanos estão por trás de tudo o que está acontecendo na Petrobrás” – empresa que foi roubada até o osso pela oligarquia lulopetista.

Graças a uma combinação de ignorância e de indisposição para aceitar a realidade, muitos eleitores não apenas acreditam nessa farsa como manifestam intenção de votar em Lula da Silva na próxima eleição presidencial, ao ponto de colocar o chefão petista na liderança das pesquisas. Ao que parece, o encolhimento de 8% da economia brasileira como consequência direta das barbeiragens administrativas petistas não é visto como um impedimento para desejar a volta dessa turma ao poder.

A tragédia latino-americana, cuidadosamente cultivada há décadas, ganhou impulso nos últimos tempos, quando se forjou uma potente aliança entre corporações corruptas, empresários oportunistas e intelectuais bocós para dar sustentação a governos “progressistas” que, enquanto encantavam os pobres com badulaques e engodos, entregavam o Estado à desbragada rapinagem.

A persistente capacidade de tipos como Lula e Maduro de ludibriar muitos eleitores indica que continua a ser muito mais fácil prometer a utopia das soluções mágicas do que enfrentar a dura realidade da crise. Criou-se, no Brasil e em parte da América Latina, um caldo de cultura favorável ao embuste. É preciso, mais do que nunca, mobilizar a sociedade para que o atraso travestido de “justiça social” deixe de prevalecer sobre a razão.

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