A frágil reação da indústria

Há sinais positivos, até no setor de máquinas e equipamentos, mas é cedo para dizer se a produção industrial já está em recuperação ou se os últimos números mostram só uma reação passageira. A indústria produziu em março 1,4% mais que no mês anterior, mas depois de um tombo de 2,7% em fevereiro. Além disso, o volume produzido foi 11,4% menor que o de um ano antes. De toda forma, a evolução mensal foi positiva em todos os grandes segmentos. O dado mais animador, à primeira vista, foi o aumento de 2,2% na fabricação de bens de capital, isto é, de máquinas e equipamentos. Nessa área tem havido crescimento contínuo desde janeiro, uma indicação aparente de maior confiança entre os empresários. Mas também isso é duvidoso. Pode até haver alguma animação, com a perspectiva de novo governo e de uma política econômica mais sensata e mais eficiente, mas quantos estariam dispostos a se arriscar no investimento?

O Estado de S. Paulo

04 Maio 2016 | 03h00

Ao comentar os últimos dados, o gerente da área de indústria do IBGE, André Macedo, preferiu ser cauteloso. A ligeira melhora da atividade industrial é mais seguramente explicável, segundo ele, pela normalização de estoques de alguns segmentos e por algum aumento de exportação. Este aumento, observável em poucas indústrias, foi facilitado pela depreciação do real, com o consequente barateamento dos produtos brasileiros no exterior. Indústrias de carnes e de celulose estão nesse grupo. Em abril, as exportações de industrializados foram 0,7% maiores que as de um ano antes, pela média dos dias úteis. De janeiro a abril, o resultado ainda foi 2,8% inferior ao dos primeiros quatro meses de 2015, apesar do câmbio mais favorável.

Quanto ao investimento, parece haver pouco motivo para celebração, por enquanto. Apesar do avanço mensal de 2,2% em março, a produção de bens de capital foi 24,5% menor que a de um ano antes, acumulando uma queda de 28,3% em 12 meses. A fabricação de máquinas e equipamentos já havia diminuído em 2014 e em 2015. De acordo com a associação dos fabricantes, a Abimaq, a receita líquida do setor, em março, foi 12,3% maior que a de fevereiro, mas 32,6% menor que de igual mês do ano passado. Além disso, a importação de bens de capital continua em queda. Em abril, foi 36,8% inferior à de um ano antes. No quadrimestre, 29,4% inferior à de janeiro-abril de 2015.

Parece arriscado, portanto, falar de uma retomada do investimento, apesar da sequência de números positivos no primeiro trimestre deste ano. O crescimento da produção no primeiro trimestre (3,1%) ocorreu depois de uma queda de 11,2% nos três meses finais de 2015, como observou Macedo. Numa interpretação ainda prudente, é mais fácil supor a reposição inadiável de certo número de máquinas e equipamentos, somada a algum reforço em algumas áreas de atividade. Os números acumulados no longo prazo ainda são muito negativos e é difícil dizer se o fundo do poço foi atingido.

A produção interna de bens de capital caiu, nos últimos anos, juntamente com a importação de máquinas e equipamentos. Isso indica de forma inequívoca a baixa disposição de investir do empresariado. Não houve desvio de compras de produtos nacionais para estrangeiros. Houve, simplesmente, uma redução geral da procura de bens de produção – e isso inclui a demanda de bens intermediários.

O governo poderia ter levado alguma animação aos empresários, se os seus programas tivessem avançado com tanto vigor quanto prometia a retórica oficial. Mas ocorreu o contrário. Os programas de infraestrutura empacaram, assim como os planos de habitação popular. A maior empresa brasileira, a Petrobrás, atolada em dívidas, forçada a suportar os custos crescentes de uma política errada e submetida a uma ampla pilhagem, foi obrigada a reduzir seus planos.

O desastre econômico provocado pelo governo bastaria para assustar os empresários. Mas veio também a crise política. A solução desta crise é a primeira condição para a volta da confiança e da disposição de investir e de mover a economia.

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