A franqueza de Levy

Em mais um esforço para consertar a imagem do Brasil, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, gastou o carnaval e a Quarta-Feira de Cinzas falando a investidores e a economistas, nos Estados Unidos, sobre a nova política econômica e as perspectivas de recuperação da economia nacional. Além de reconhecer o desastre fiscal dos últimos anos e de prometer medidas corretivas e um novo rumo, enfrentou perguntas sobre a pilhagem da Petrobrás e sobre as consequências do assalto à maior estatal e maior empresa do País. Os desdobramentos do caso Petrobrás são cada vez mais relevantes, disse o economista Mauro Leos, vice-presidente e analista sênior de crédito soberano da Moody's. Um eventual socorro financeiro do governo, observou o analista, poderia afetar a avaliação do crédito soberano. Além disso, é claro, os problemas da petroleira têm reflexos importantes na atividade de outras empresas.

O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2015 | 02h08

A preocupação de investidores e analistas com a Petrobrás dá uma dimensão incomum aos problemas da nova equipe econômica. Novos ministros são muitas vezes forçados a cuidar dos danos produzidos por erros de seus antecessores. Neste caso, houve muito mais que erros de política econômica, reconhecidos por Levy, em Nova York, ao mencionar as consequências da política fiscal expansionista. O intervencionismo abusivo e o uso político-eleitoral da Petrobrás prejudicaram seriamente as finanças da empresa, diminuíram sua capacidade de investimento e cortaram sua comunicação mais importante com o mercado - a publicação de um balanço digno de crédito.

Levy foi obrigado a falar do pré-sal como uma "realidade" e a enfatizar o potencial da companhia como se apresentasse um novo empreendimento ao mercado - além, naturalmente, de prometer para breve uma solução para o caso do balanço. Vender ao mercado a imagem de uma estatal saqueada - e ainda sem condições de publicar suas contas - está muito longe de ser uma tarefa normal para um ministro de Fazenda. A herança dos governos petistas é muito pior e muito mais humilhante do que seria o legado da mera incompetência - já considerável, nesse caso - para cuidar da economia.

Com cuidado, mas sem disfarçar os fatos essenciais, o ministro mencionou algumas das principais barbaridades cometidas na política econômica ao longo dos últimos anos. Falou sobre um deslize fiscal significativo em 2014 e sobre os esforços para corrigi-lo. Citou o aumento da relação entre a dívida pública e o Produto Interno Bruto (PIB) provocado pelo expansionismo fiscal. Incluiu as desonerações de impostos entre as causas dos problemas financeiros do setor público. Anunciou o abandono dos aportes do Tesouro ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Prometeu disciplinar a folha de pagamentos do funcionalismo.

Trata-se de uma volta à normalidade, assegurou o ministro, e essa normalização deve incluir também a relação do Tesouro Nacional com Estados e municípios. Já nos Estados Unidos, o ministro havia anunciado o fim das autorizações para novo endividamento estadual. É uma forma de envolver os governos subnacionais no esforço de arrumação fiscal, depois das facilidades concedidas politicamente nos últimos anos.

Levy mencionou aos investidores e analistas sua promessa de transparência na política fiscal - um detalhe muito importante, depois de anos de maquiagem por meio da contabilidade criativa, fato conhecido internacionalmente. Procurou, em Washington e em Nova York, mostrar franqueza na discussão dos problemas, de suas consequências e das soluções necessárias, mesmo sem abandonar alguma diplomacia em relação à gestão anterior.

A franqueza incluiu o reconhecimento da piora da economia nacional e da possibilidade de um "crescimento negativo", isto é, de retração, no ano passado. Em relação a este ano o mercado se adiantou. Em uma semana, os economistas consultados na pesquisa Focus, do Banco Central, reduziram de zero para menos 0,42% a variação estimada para o PIB em 2015. Qualquer resultado positivo será lucro para o governo.

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