A fraternidade está em campanha

Ela merece ser apoiada para superar injustiças, discriminações, polarizações e ódios

*DOM ODILO P. SCHERER, O Estado de S.Paulo

10 Março 2018 | 00h01

Todos os anos, desde 1963, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) promove a Campanha da Fraternidade durante o período da Quaresma, quando os cristãos se preparam para celebrar a Páscoa. Incentivador primeiro da iniciativa foi dom Eugênio de Araújo Sales, na época responsável pela Arquidiocese de Natal, secretário para a ação social da CNBB e presidente da Cáritas Brasileira. A inspiração veio de outras campanhas semelhantes já realizadas regularmente, naquele tempo, por outras conferências episcopais, como as da Alemanha e da Itália.

No seu nascimento, a Campanha da Fraternidade foi instrumento de implementação do Concílio Ecumênico Vaticano II na renovação da Igreja Católica. Desde 1970, a cada ano o papa envia uma mensagem na abertura da campanha, na Quarta-Feira de Cinzas, o que mostra a importância que a Campanha da Fraternidade assumiu.

Inicialmente, os temas anuais foram dedicados sobretudo à vida interna da própria comunidade católica. A partir de 1973, porém, o temário foi sendo orientado para questões sociais e âmbitos em que se faz necessário promover maior fraternidade, nas suas diversas implicações.

Essa evolução traduz a compreensão de que a fé católica não se restringe à vida privada, mas tem implicações sociais. Como Jesus ensinou, amor a Deus e amor ao próximo são inseparáveis. O tema de 1973, “O egoísmo escraviza, o amor liberta”, apontava claramente para a necessária superação de tudo o que escraviza a pessoa e fere a sua dignidade. Em 1974 o tema “Onde está teu irmão?” tratava da defesa da vida humana e da superação de toda violência contra o semelhante. Em 1975, “Repartir o Pão” abordava o escândalo da fome e da miséria. Em 1978, com o tema “Trabalho e justiça para todos” a campanha enfocou o problema do desemprego e das injustiças sociais, que ferem profundamente a solidariedade social e a fraternidade.

Com o passar do tempo, passaram a ser abordadas questões que, para uma análise superficial, nada teriam em comum com a promoção da “fraternidade” e, menos ainda, com a Quaresma e a vivência da fé cristã. No entanto, a reta compreensão da fé e da moral cristãs não permite separação e incoerência entre o culto prestado a Deus e o zelo e apreço pela obra de Deus. Assim, em 1979, o tema “Preserve o que é de todos” levantou a questão das dimensões da justiça e da fraternidade implicadas no cuidado, ou no descuido, da natureza. A temática ambiental foi tratada ainda em várias outras campanhas sucessivas, como a de 2017, que tratou dos biomas brasileiros.

Em 1981, o foco foi “Saúde para todos”; em 1988, “Ouvi o clamor desse povo” tratou da “fraternidade e o negro”. A abordagem de questões foi sendo ampliada, abrangendo assuntos e âmbitos muito diversos, como a terra, a água, as drogas, o trabalho, a saúde, a economia, o tráfico humano, a segurança pública. 

“Fraternidade e superação da violência” é o tema de 2018. Recentemente, a campanha também passou a ser promovida de modo ecumênico a cada cinco anos.

Os objetivos da Campanha da Fraternidade estão expressos no seu próprio nome: despertar e promover o amor fraterno e o senso comunitário, indicando vias para a promoção do bem comum, especialmente em relação às questões focadas em cada campanha. E a via proposta para promover o bem comum é a da fraternidade efetiva, traduzida em respeito, solidariedade, defesa ou socorro de quem mais sofre as consequências da ausência de fraternidade na vida social. 

Os resultados pretendidos são maior justiça, harmonia e paz social, a equidade e a participação responsável na promoção do bem comum. Tudo isso não é apenas compatível com a fé e a vida cristãs: trata-se de exigências éticas e morais decorrentes do Evangelho de Jesus Cristo.

No final da campanha é feito o “gesto concreto de solidariedade”, mediante a coleta em dinheiro nas celebrações da Igreja Católica em todo o Brasil. O fruto desse gesto é destinado a apoiar ações voltadas para a busca dos objetivos da Campanha: localmente, pelas dioceses; em todo o Brasil, pela CNBB. A fraternidade merece ser apoiada para superar injustiças, discriminações, polarizações e ódios, sintomas de sérias enfermidades no corpo social.

Com a Campanha da Fraternidade a Igreja Católica não deixou de lado a sua missão religiosa, nem se alinhou a nenhuma ideologia, partido político ou governo. O pressuposto dessa ação é sempre o da fé cristã, em que o amor a Deus e o amor ao próximo são inseparáveis. Quem deseja viver a fé de modo coerente não pode ficar alheio ao que se passa ao seu redor. 

Vale lembrar as recomendações aos cristãos dadas pelo apóstolo São João já no início da Igreja: “Filhinhos, não amemos só com palavra e de boca, mas com ações e de verdade” (1Jo 318). De modo semelhante, o apóstolo São Tiago respondeu a quem pensava que a fé cristã fosse apenas interior, sem implicações na vida social: “Meus irmãos, de que adianta alguém dizer que tem fé, quando não tem obras? (...) A fé, se não se traduz em ações, é morta em si mesma” (cf Tg 2,14-17).

A promoção da Campanha da Fraternidade é uma das respostas ao chamado que ressoa no rito da Quarta-Feira de Cinzas, bem no início do período quaresmal: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (cf Mc 1,15). Quem tem fé religiosa deve voltar-se para Deus de todo o coração e orientar suas relações sociais de maneira coerente com o amor ao próximo. A Campanha da Fraternidade não absorveu nem substituiu as demais práticas da Quaresma, que continuam sendo propostas a todos os fiéis: o jejum, a esmola e a oração. Seria um erro deixar de lado essas práticas penitenciais consagradas desde os tempos bíblicos. E seria um lamentável equívoco achar que a Campanha da Fraternidade é estranha às práticas quaresmais cristãs.

*CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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