A frustração da indústria

Carente do apoio do meio empresarial para o projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff, mas sem ter o que oferecer de novo para um empresariado industrial ávido por medidas que lhe facilitem o acesso ao mercado internacional, o governo se comprometeu a colocar em prática imediatamente alguns acordos comerciais que concluiu. Não são acordos comparáveis aos que outros países latino-americanos negociaram com grandes importadores mundiais, como os Estados Unidos, a União Europeia e a China, ou mesmo entre eles, mas pareciam suficientes para o governo mostrar preocupação com a crise que a indústria atravessa. O empresariado se contentaria com pouco. "Nessa situação do comércio internacional, qualquer ajuda que venha para acesso a mercado é muito importante", disse ao Estado o diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Carlos Abijaodi. Até agora, porém, não veio nada.

O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2014 | 02h06

No fim de setembro, a menos de uma semana do primeiro turno da eleição presidencial, os ministros da Fazenda, Guido Mantega, e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mauro Borges, estiveram na sede da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para anunciar medidas de apoio às exportações de produtos manufaturados. Entre elas, como mostrou reportagem do Estado (7/10), estava a formalização de tratados já aprovados pelo Congresso, mas engavetados à espera apenas da assinatura presidencial, o que, prometiam os ministros, ocorreria imediatamente. Nem isso foi feito.

Entre os acordos, o ministro Mauro Borges citou os que reduzem as tarifas dos produtos brasileiros exportados para países da África e da América Latina e padronizam contratos de exportação, reduzindo a insegurança jurídica e harmonizando as práticas brasileiras com as da maioria dos parceiros comerciais do País. "São todos de interesse para nós, ajudam, facilitam um pouco o acesso a mercados e países a que não temos acesso preferencial", disse Abijaodi, que não encontra explicação para o atraso.

É apenas o mais recente tropeço do governo na área de comércio exterior. Tendo abandonado, por razões políticas e ideológicas, a busca de acordos amplos com parceiros comerciais de maior peso no comércio exterior do País e concentrado sua atenção nos países em desenvolvimento, o governo PT isolou o Brasil de boa parte do mundo no campo comercial. Buscou acordos multilaterais, no âmbito da Organização Mundial do Comércio, mas bombardeou - com o apoio do governo argentino então chefiado por Néstor Kirchner - a criação de uma Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que asseguraria acesso mais facilitado ao maior mercado importador do mundo, o dos Estados Unidos. Ficou sem nada.

Amarrado às regras do Mercosul, que o impede de firmar acordos comerciais isoladamente, o Brasil tem dificuldades para obter acesso mais facilitado a muitos mercados. É o preço que o País paga pela preferência do governo pelo Terceiro Mundo e por governos com os quais tenha afinidades ideológicas. A iniciativa mais ambiciosa é o acordo de livre comércio do Mercosul com a União Europeia, em negociações há vários anos, mas cuja conclusão é dificultada pela pouca disposição da Argentina de abrir seu mercado.

Mais previdentes, outros países latino-americanos buscaram acordos com os principais importadores ou parcerias regionais bem mais produtivas do que a que o Brasil mantém com os países do Cone Sul. México, Colômbia, Peru e Chile, por exemplo, formaram a Aliança do Pacífico, com grandes possibilidades de ampliar o comércio entre eles e aberta à participação de outros países.

A indústria brasileira perdeu competitividade e vê seu mercado, inclusive o doméstico, ser tomado por concorrentes estrangeiros - e precisa reverter essa tendência para sobreviver. Necessita de confiança para retomar investimentos na modernização de seu parque e em novos produtos. Mas dispensa mais incompetência do governo, o que só faz aumentar sua frustração.

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