A futilidade das sanções

Há um quê de reação pavloviana na decisão dos Estados Unidos e da União Europeia (UE) de impor uma terceira rodada de sanções a pessoas e empresas ligadas ao presidente russo, Vladimir Putin, por ter seu governo descumprido um acordo de chanceleres com a Ucrânia pelo qual deixaria de estimular os movimentos separatistas no leste do país. As sanções anteriores foram uma resposta à anexação da Crimeia pela Rússia, em seguida a uma consulta popular em que a esmagadora maioria optou por se desligar da Ucrânia.

O Estado de S.Paulo

30 Abril 2014 | 02h10

Desta vez, agindo por um movimento reflexo que ignora a futilidade das medidas precedentes para os fins a que se destinariam e deixa a nu a falta de visão estratégica do Ocidente para lidar com a nostalgia imperial que norteia a política externa de Moscou, Washington colocou na lista negra 7 figurões e 17 companhias, punidos com o congelamento dos bens no exterior e proibição de viagens. Dos sete, quatro são magnatas que se supõe façam parte do que é tido como "o círculo financeiro" de Putin - cuja fortuna é estimada em dezenas de bilhões de dólares.

São nomes do calibre de Igor Sechin, presidente da Rosneft, a estatal russa do petróleo, e de Sergei Chemezov, o czar do setor de tecnologia no país, cuja amizade com Putin data dos tempos da URSS, quando dividiam um apartamento na então Alemanha Oriental, onde o atual presidente servia como coronel da KGB. Já das 17 empresas que as sanções pretendem atingir, 11 estão no portfólio do oligarca Gennady Timchenko, entre elas a responsável pela rede de dutos da Gazprom, a estatal de gás - o que dá ideia do grau de concentração do complexo industrial cujos barões operam em sintonia com Putin.

Mais importante do que as restrições de que foram alvo - e que não impediram a alta de 0,65% da Bolsa de Moscou - há de ser o veto do presidente Barack Obama à exportação de licenças para a produção de bens de alta tecnologia capazes de ser usados pela Rússia como equipamento militar. A UE, de seu lado, acrescentou 15 nomes aos 33 das levas anteriores. Bruxelas focalizou políticos, altos funcionários, militares e ativistas pró-russos que lideraram os ataques a edifícios públicos nas cidades ucranianas de Lugansk e Donetsk.

É uma lista respeitável. Inclui o vice-primeiro-ministro russo, Dmitri Kozak, a líder parlamentar Ludmila Shvetsova; o general Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; e o coronel Igor Sergun, que comanda o seu setor de inteligência. À parte demonstrar que sabe quem é quem nas altas esferas civis e militares da Rússia envolvidas com a questão ucraniana - o que certamente não requer os serviços de um 007 -, Bruxelas apenas fez expressão corporal de pressionar Moscou. Nos diversos idiomas da maioria dos 28 Estados-membros do bloco europeu, a palavra cautela está na ordem do dia.

Se os russos não perdem de vista que a UE é a sua maior parceira comercial, os europeus muito menos se esquecem de que a economia europeia, a começar da alemã, o motor do conglomerado, depende do gás e do petróleo da Rússia. Os Estados Unidos precisariam mudar a sua legislação e criar toda uma nova infraestrutura de transporte para suprir as necessidades energéticas de seus parceiros do outro lado do Atlântico. Eis por que a possibilidade de estender a política de sanções ao setor russo de energia não passa perto dos centros europeus de decisão. Ali, a Rosneft e a Gazprom são intocáveis.

Mesmo a Casa Branca não parece ter grandes ilusões sobre a eficácia das sanções seletivas. O próprio Obama diz que o objetivo não é "ir para cima" de Putin, mas mudar os seus cálculos sobre a Ucrânia, sob pena de "um impacto negativo sobre a economia russa no longo prazo". Talvez ele devesse ouvir o diretor sênior para assuntos russos do Conselho de Segurança Nacional no governo George W. Bush, Thomas Graham. Nem a "diplomacia do megafone" nem trocas de telefonemas, argumenta, mudarão a conduta de Putin. Apenas "um trabalho sério, nos bastidores", poderá fazer diferença.

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