A galinha de Esopo

A viúva tinha uma galinha que punha um ovo a cada dia. Imaginou que, comendo mais cevada, a bichinha botaria dois ovos por dia. Aumentou-lhe a ração. A galinha tornou-se gorda, muito gorda. Por isso, não foi mais capaz de pôr nem o ovo cotidiano. Quem ambiciona cada vez mais perde até mesmo o que possui. É isso que ensina Esopo em sua fábula. Pois bem, a galinha é o PT. De tanto engordar, com a cevada que lhe é dada, todos os dias, pelo dono do galinheiro, o presidente Lula, o Partido dos Trabalhadores perdeu aquilo que lhe era mais precioso: o ovo ideológico. Pode ser que a cozinha petista delicie seus milhões de comensais com o menu à base do galináceo. Mas, convenhamos, o farto repasto deixou de ser um prato que já foi considerado o mais diferenciado do banquete partidário nacional. A pimenta-malagueta, toque peculiar dos tempos em que mestres-cucas caprichavam na culinária, foi trocada por vinagre adocicado. Do bornal partidário saem alimentos inodoros, incolores e insossos. Iguais aos servidos em mesas triviais.A mais evidente demonstração da sensaboria petista é o enquadramento imposto por Lula à bancada no Senado em relação ao senador José Sarney, apesar da negativa do partido em nota oficial. Alguns senadores se inclinavam a pedir a licença temporária do presidente da Casa. Refluíram na intenção, obrigando o líder do partido, senador Aloizio Mercadante, a proferir um dos mais ambíguos discursos de sua vida, algo que flutuou entre o ser e o não ser, o ir adiante e o voltar, a inequívoca necessidade de mudar e a insuperável vontade de ficar no mesmo lugar. Na oratória, o que faltou em substância sobrou em entonação vocal, sugerindo compensação entre o conteúdo (tênue) e a forma (volumosa). É evidente que o PT preza, e muito, a cevada que recebe do presidente Lula. Tem sido a principal vitamina para sua expansão no território nacional, ou melhor, para a fixação de estacas nos grotões do País, a partir do Nordeste, onde tira votos de grandes partidos, como o DEM e o próprio PMDB.A reconstrução do partido com argamassa pasteurizada tem como justificativa, para lembrar a peroração de Mercadante, a preservação da governabilidade. Em termos claros, significa correr ao balcão da compra e venda de produtos com o selo do pragmatismo. Nesse caso, o vendedor é o PMDB, a mais poderosa sigla nacional, que reúne os maiores contingentes de prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais e senadores. Fica claro que uma sólida aliança com ele propiciará a capilaridade necessária a uma campanha política, além de agregar o maior tempo de rádio e TV na programação eleitoral. Trata-se de decisão oportuna, até porque o passado mostra que um dos maiores erros de Lula foi vetar o acordo firmado ao final de 2002, antes de iniciar seu primeiro mandato, entre o PT e o PMDB. Com frouxo apoio no Congresso, foi difícil ao governo aprovar matérias de seu interesse. De lá para cá, o presidente repaginou a identidade. Deixou de exibir o traje de torneiro mecânico do ABC paulista para explorar a origem nordestina. Plantou sementes que lhe dão frutos nas searas das classes sociais. Sedimentou o lulismo, cujo ideário se inspira no pragmatismo, e destroçou os esquadrões petistas que teimavam em ir à luta com os velhos canhões ideológicos. Ou, para usar a linguagem desta era argentária, o verbo curvou-se às verbas.O PT mudou de tom, mas alguns de seus filiados ainda piam à moda antiga. Um deles é o senador Tião Viana (AC), ao carregar nas tintas da revista Veja com expressão lamentosa: Lula "deixa uma grande frustração no que se pensava ser uma de suas maiores habilidades - a política partidária. Nada fez para evitar a desconstrução e a perda de autoridade moral do Congresso. Os partidos estão mais fracos e deteriorados do que antes de sua posse". Não há sofisma. Ele afirma, com todas as letras, que Lula expressa um retrocesso no modo de fazer política. Mesmo debitando as palavras à dor de cotovelo com a derrota para Sarney na eleição para a presidência do Senado, Viana não poderia ser mais contundente. O presidente, porém, fez que não ouviu. Do alto da fama - nacional e internacional -, chama o PT à ordem unida. Haverá preço por um alinhamento inspirado no mais salgado conservadorismo? Sim. O voto de opinião poderá ser desviado da bancada do PT. Dos 12 senadores do partido, 9 tentarão um novo mandato em 2010. Já a bancada petista na Câmara tentará exibir a bandeira de verbas destinadas às regiões. O PT é quem mais instrumentaliza o Orçamento. Nos territórios eleitorais desenvolvidos, candidatos buscarão explicar a geleia em que se transformou a entidade. A tarefa não será fácil. Sobrará para eles a confiança de que o prestígio do presidente da República lhes propiciará vitória fácil. Nos grotões, é provável um arrastão eleitoral sob empuxo do assistencialismo. Lula exerce, ali, o coronelato mais estrelado.O ônus mais pesado do PT estará no Sudeste, onde o partido perde força a cada pleito. Desfigurado e a cada dia comprometido com manchas constantes que sujam o tecido político, a sigla da estrela terá dificuldades para resgatar a margem histórica de 30% de votos em São Paulo. Mas a carga negativa, como crê o onipotente Lula, não terá o condão de influir na contabilidade global da sigla. Para tanto usará o apelo econômico - programas de motivação e incentivo como os de casas populares e redução de IPI -, ao lado da retórica triunfalista de nação que resistiu bravamente à crise. Na condição de popstar, acreditando tanto na onisciência a ponto de pregar que Sarney não deve ser tratado como um ser humano normal, Luiz Inácio incorpora a identidade do homem providencial. Na hora certa, chega para atenuar a tempestade sobre o Senado. Só ele tem o poder de trocar a cor vermelha do PT por um painel furta-cor e transformar lobos em cordeirinhos. Ninguém duvide se for capaz de fazer a galinha gorda de Esopo botar dois ovos por dia. Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político e de comunicação

Gaudêncio Torquato, O Estadao de S.Paulo

11 de julho de 2009 | 00h00

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