A gestão do entulho

A Prefeitura de São Paulo decidiu, finalmente, acabar com uma das práticas mais danosas para o meio ambiente na capital - o descarte irregular de resíduos de construção civil. Um novo contrato a ser firmado com as concessionárias de limpeza urbana obrigará a retirada das montanhas de entulho abandonadas em áreas impróprias e a reciclagem do material coletado tanto nesses locais quanto nos depósitos regulares. Com isso, o governo municipal começa a atender às exigências da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que determina a instalação de centrais de triagem e reciclagem nos aterros. As quatro empresas que prestam esse tipo de serviço em São Paulo recebem mensalmente 78 mil toneladas de restos de construção das empresas de caçambas credenciadas, dos 42 ecopontos e canteiros de obras dos governos estadual e municipal.

, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2011 | 00h00

Estima-se que isso corresponda ao que a construção civil da capital produz em menos de uma semana. A cada dia, são irregularmente descartadas em São Paulo 17 mil toneladas de entulho, na maior parte restos de tijolos, aglomerados, telhas, pedras, carpete, estuque, madeira, metais e gesso. Entre os responsáveis pelas obras, é comum a contratação de caçambeiros que recolhem o lixo e o abandonam na primeira área livre que encontram - desde praças e canteiros centrais de avenidas até áreas de proteção ambiental -, para diminuir o custo do transporte.

A irresponsabilidade de alguns causa sérios prejuízos à população. O entulho degrada a paisagem urbana, serve de criadouro para transmissores de várias doenças e, nas épocas de chuvas intensas, vai parar nas galerias e nos cursos d"água, agravando o problema das enchentes. Isto exige da administração pública investimentos cada vez maiores para a manutenção de galerias e limpeza de rios e córregos.

A cidade perde muito também com o desperdício do entulho. O material resultante da reciclagem de restos de construção é de alta qualidade, pois contém elementos como o cimento, que assegura melhor liga. O entulho reciclado pode, assim, baratear a construção sem comprometer sua qualidade. Está provado que a resistência desse produto pode ser igual ou mesmo superior à dos agregados primários.

Hoje, o entulho é enterrado, embora a maior parte dos restos de construção, asfalto e concreto possa ser reciclada. Estudos mostram que é possível fazer o reaproveitamento desse material em instalações e por equipamentos de baixo custo, em grande parte na própria obra onde o resíduo é gerado, o que permite a economia dos custos de transporte.

O edital para a seleção das concessionárias que atuarão na coleta e reciclagem dos resíduos de construção determina o reaproveitamento de apenas 10% de todo o entulho produzido na cidade. Considerando-se o alto valor desse material e os benefícios que ele pode trazer, é difícil entender por que se estabeleceu um porcentual tão baixo como aquele. Além disso, o entulho que não for reciclado deverá ser aterrado, para que futuramente possa ser recuperado e levado às centrais de reciclagem, o que dobra o trabalho e os custos.

Regras mais rígidas possibilitariam melhor controle do desperdício e, consequentemente, maior aproveitamento do material. Muito do entulho produzido pela construção civil é resultado de falhas de projeto e de execução, de estoque mal organizado e da má qualidade dos materiais. A melhoria do planejamento e do controle das obras, principalmente as públicas, reduziria o entulho produzido diariamente na cidade.

A Prefeitura de São Paulo foi pioneira no Hemisfério Sul ao instalar, em 1991, a primeira usina de reciclagem com capacidade para 100 toneladas/hora. O material produzido passou a ser utilizado na pavimentação de vias secundárias. Mas, de lá para cá, pouco se avançou no tratamento dos resíduos de construção. Como a qualidade de vida e a utilização não predatória dos recursos naturais estão na ordem do dia, o que se espera agora da Prefeitura e da indústria da construção civil é maior atuação nesse setor.

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