A Grécia precisa crescer

A próxima etapa da maratona grega será a conclusão do acordo com os bancos para o perdão de mais de 100 bilhões de sua dívida com o setor privado, mas os líderes do setor financeiro parecem dar o assunto como resolvido e não deverão criar grandes problemas. Um novo acordo de socorro dará aos gregos um "enorme espaço para respirar", disse o diretor-gerente do Instituto de Finanças Internacionais, Charles Dallara, principal porta-voz dos banqueiros. "As perdas serão substanciais, mas serão contidas", disse o executivo, comentando o corte previsto de 53,5% do valor nominal dos títulos gregos em poder dos credores privados. O corte efetivo tem sido estimado em cerca de 70%, por causa de uma provável redução dos juros sobre o saldo.

O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2012 | 03h05

Espaço para respirar é o ganho principal. A nova ajuda de 130 bilhões, decidida na madrugada de terça-feira pelos ministros de Finanças da zona do euro, representa para o governo grego não só mais um enorme pacote de financiamento, mas uma nova oportunidade para escapar de um calote desordenado e para pôr em marcha um plano de arrumação da economia nacional.

Não se trata só de consertar as contas públicas e de reduzir o peso da dívida oficial, mas também de organizar um novo padrão de crescimento, menos dependente de um Estado gordo e pouco eficiente e muito mais de um setor privado dinâmico. A importância crucial dessa reforma foi acentuada pela diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, ao defender a criação de uma economia mais competitiva. Poderia ter mencionado, mais simplesmente, a necessidade de uma economia mais dependente de empresas criadoras de empregos produtivos.

Mas a Grécia precisa de uma terapia mais ampla que o mero aperto fiscal. Necessita de atividade para criar lucros, empregos e impostos. O governo alemão ainda resiste a essa ideia, mas a proposta de ajuste com crescimento ganha apoio dentro e fora da Europa, como solução para todos os países em crise.

Essa combinação foi defendida oficialmente em documento encaminhado ao Conselho Europeu e à Comissão Europeia por chefes de governo de 12 países do bloco, incluídos os primeiros-ministros da Itália, Mario Monti, do Reino Unido, David Cameron, e da Espanha, Mariano Rajoy. A crise europeia é também uma crise de crescimento e para vencê-la os governos precisarão adotar políticas de estímulo econômico e medidas de liberação dos mercados, diz o texto assinado pelos 12 líderes.

A carta foi enviada também a governos ainda não engajados na campanha pela adoção de políticas de crescimento. A nova iniciativa é parte de um esforço empreendido pelo primeiro-ministro italiano em vários contatos com autoridades da França e da Alemanha.

A importância de uma política de estímulos vem sendo há mais de um ano ressaltada por dirigentes e economistas do FMI, mas normalmente com uma ressalva: alguns governos, sem espaço para maiores gastos, terão de se concentrar nas tarefas de ajuste. Mas a mensagem do crescimento, dirigida aos governos com melhor situação fiscal, tem um componente muito importante nem sempre valorizado: se os países em melhores condições crescerem mais e importarem mais, ajudarão os outros a vencer a crise com menor sacrifício.

A União Europeia ainda terá de resolver questões políticas importantes para tomar o rumo de um crescimento mais seguro e duradouro. Críticos da política alemã continuam defendendo a formação de um fundo de resgate mais poderoso, com pelo menos 1 trilhão. E continua em debate a criação de eurobônus, títulos públicos de responsabilidade partilhada.

A Grécia, humilhada e ameaçada de viver anos vigiada por prepostos da troica - União Europeia, Banco Central Europeu e FMI -, é a primeira e mais dramática demonstração de como pode falhar um empreendimento ambicioso, promissor e incompleto. Mas todos os sócios da zona do euro, mesmo aqueles em melhor situação, refletem, de algum modo, as falhas políticas do projeto coletivo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.