A guerra de Cristina

O governo de Cristina Kirchner tem um invejável batalhão de jornais e emissoras de TV que estão explicitamente a seu serviço ou que lhe são simpáticos. Mas isso não é o bastante para quem pretende exercer o poder sem nenhuma forma de oposição ou crítica. Por esse motivo, Cristina não economiza munição para sufocar os jornais que se empenham em apurar e publicar os desmandos do kirchnerismo na Argentina. O último lance desse cerco é um projeto de lei governista que expropria 24% das ações da Papel Prensa, responsável pelo fornecimento de 75% do papel usado pelos jornais do país. Com a jogada, o governo passaria a ter 51% das ações da empresa - ganhando o poder de estabelecer o preço e a distribuição desse precioso insumo.

O Estado de S.Paulo

14 Maio 2013 | 02h08

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) prontamente denunciou a manobra, qualificando-a de "novo e grave retrocesso" à liberdade de expressão na Argentina e alertando que o risco de que se cometam "arbitrariedades em razão da linha editorial dos meios de comunicação" cresce "exponencialmente". A Associação das Entidades Jornalísticas Argentinas foi ainda mais clara: "Sem acesso livre ao papel, não há imprensa livre". Trata-se da continuação de uma ofensiva iniciada em 2011, quando os kirchneristas aprovaram uma lei que tornou "de interesse público" a produção de papel para jornal. Não por acaso, o grupo de parlamentares que quer estatizar a Papel Prensa é o mesmo que trabalha por uma reforma constitucional que permita reeleições presidenciais ilimitadas, sob o slogan "Cristina eterna".

O plano de batalha de Cristina tem várias outras frentes. Além do controle do papel, o governo procura asfixiar os jornais limitando a publicidade. Em fevereiro, quando mandou congelar preços em sua luta insana contra a inflação, o governo pressionou os supermercados e as lojas de eletrodomésticos a deixar de anunciar nos jornais.

Com isso, só o Grupo Clarín, que edita o jornal de mesmo nome, perdeu US$ 5 milhões mensais, em média, em faturamento. No último dia 12, o governo permitiu a volta da publicidade - menos nos jornais Clarín, La Nación e Perfil, justamente os mais críticos de Cristina. Além disso, a YPF, maior petrolífera do país, estatizada há cerca de um ano, deixou de anunciar no Clarín.

Outra manobra para estrangular o Clarín, conforme denunciou o jornal La Nación, pode ser uma ofensiva judicial para permitir que Cristina interfira diretamente na direção da empresa jornalística. Para isso, o governo pode usar uma mudança na lei sobre o mercado financeiro, promovida pelos kirchneristas no final do ano passado, que autoriza acionistas minoritários de empresas com ações em bolsa a solicitar à Comissão Nacional de Valores (CNV), a autoridade do mercado de capitais, que faça auditoria e que determine uma intervenção na diretoria quando há problemas de gestão. A intervenção pode chegar a seis meses, sem direito a apelação judicial.

No caso específico do Clarín, o governo é acionista minoritário, pois estatizou os fundos de pensão que detêm parte das ações da empresa. Além disso, segundo o La Nación, o kirchnerismo promoveu mudanças na CNV de modo a facilitar a intervenção, isolando os técnicos que se opõem a ela.

O primeiro ato dessa ópera-bufa ocorreu em 25 de abril, quando o secretário do Comércio Interior, Guillermo Moreno, e o vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, irromperam na assembleia anual de acionistas do Grupo Clarín e, dizendo-se acionistas, passaram a questionar a honestidade dos diretores da empresa. Acompanhado de câmeras de emissoras de TV a seu serviço, para, segundo suas palavras, "filmar bem cada um e gravar o que dizem", além de taquígrafos, para "tomar nota do que acontece na primeira assembleia pública do Grupo Clarín S.A.", Moreno ficou cinco horas na reunião e atacou grosseiramente os executivos da empresa.

Na base do histrionismo, o governo Cristina criou o caso que pode justificar a intervenção no Clarín, mostrando que seu ânimo contra a imprensa livre não tem nem vergonha nem limites.

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