A herança do desemprego

O desemprego, o efeito mais cruel da recessão, continuou em alta no segundo trimestre e ainda atormentará os brasileiros até a recuperação ganhar impulso e a confiança dos empresários se firmar

O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2016 | 03h13

O desemprego, o efeito mais cruel da recessão, continuou em alta no segundo trimestre e ainda atormentará os brasileiros até a recuperação ganhar impulso e a confiança dos empresários se firmar. A expectativa do empresariado industrial tem melhorado e esse dado é especialmente importante, porque o dinamismo da economia ainda é muito dependente, no Brasil, do ritmo de atividade das fábricas. Mas as melhores notícias, por enquanto, apenas indicam uma estabilização dos negócios e, em alguns segmentos, um tímido começo de reação. Enquanto se esperam sinais mais fortes de reativação, é inevitável prosseguir no balanço dos estragos causados pelos erros e desmandos acumulados principalmente a partir de 2009-2010, quando o Brasil começou a vencer o primeiro impacto da grande crise internacional.

O desemprego aumentou de 10,9% no primeiro trimestre para 11,3% da força de trabalho no segundo, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua divulgada na quarta-feira passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A Pnad-Contínua, atualizada e publicada mensalmente, substituiu no começo do ano a velha série estatística do desemprego, limitada às seis maiores áreas metropolitanas. O levantamento do IBGE cobre agora, em cada trimestre, 211 mil domicílios de 3.464 municípios de todo o País.

No segundo trimestre, 11,586 milhões de pessoas estavam desempregadas. Entre abril e junho de 2015 eram 8,354 milhões, correspondentes a 8,3% da população economicamente ativa. Nesse intervalo, a força de trabalho passou de 100,57 milhões para 102,38 milhões de pessoas, mas o mercado de trabalho, já com enorme número de excedentes, foi incapaz de absorver os novos candidatos.

Desde o fim do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, o Brasil tem seguido rumo inverso ao das economias desenvolvidas e da maior parte das emergentes. A produção e o emprego voltaram a crescer nos países mais afetados pela crise iniciada em 2008. Desde fevereiro de 2010 foram abertos 15 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos, onde o desemprego chegou nos últimos meses a 4,9% da força de trabalho. Na Europa, a desocupação ficou pouco acima de 10% da força de trabalho no segundo trimestre deste ano, abaixo, portanto, da taxa brasileira.

No Brasil, o Produto Interno Bruto (PIB) ficou estagnado em 2014, diminuiu 3,8% em 2015 e continua a encolher. O déficit público nominal – com inclusão, portanto, dos juros da dívida pública – bateu em 10% do PIB, mais que o triplo da média europeia. A situação fiscal brasileira é muito pior que a da maior parte das economias emergentes e a inflação no Brasil, ainda acima de 8% nos últimos 12 meses, é muito maior que na maior parte do mundo.

É preciso levar em conta essas comparações para avaliar com algum realismo a política econômica da presidente Dilma Rousseff – uma continuação, em vários aspectos, daquela desenvolvida por seu antecessor. A distribuição de benefícios fiscais e financeiros a grupos e setores escolhidos, a estratégia de escolha de campeões nacionais e a promiscuidade entre o Tesouro e os bancos estatais, o loteamento e o aparelhamento da máquina federal são algumas das características comuns aos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de sua sucessora.

A recessão, o desarranjo das contas públicas, a inflação elevada, a recessão e o desemprego são os efeitos – previsíveis e previstos por vários analistas – desse tipo de política. Não se pode cassar um governante pelo conjunto de sua obra, disse a presidente afastada Dilma Rousseff. Não há, no entanto, como separar pedaladas e decretos ilegais desse conjunto.

As melhores notícias, por enquanto, indicam tendência à estabilização. Em julho, a indústria paulista demitiu 6 mil pessoas. A queda do emprego, de 1,5% com ajuste sazonal, é menos intensa e tende a se esgotar, comentou o diretor do departamento econômico da Fiesp, Paulo Francini. Com o impeachment, pode-se acrescentar, a recuperação deverá ser mais fácil.

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