A hora é de temperança

Não há mais como esconder o sol com a peneira. A presidente reeleita, os novos governantes estaduais e a representação no Congresso Nacional terão de enfrentar nos próximos tempos o sol mais abrasador de verões que o País viveu nas últimas décadas.

Gaudêncio Torquato, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2014 | 02h03

Há razões de sobra para demonstrar a hipótese, mas fixemos a atenção em apenas numa: a sociedade organizada está adiante do universo político. O que quer dizer que a comunidade nacional, abrigada em núcleos de interesse e em fortalezas de demandas, está um passo à frente dos mandatários; e estes, infelizmente, não têm conseguido acompanhar as massas apressadas e estabelecer com elas pontes de acesso e diálogo. É visível a distância entre as esferas política e social, principalmente quando se constata que a profusão de demandas reprimidas não consegue entrar nos ouvidos de representantes inertes e insensíveis.

As manifestações que despertaram a sociedade em meados do ano passado e se estenderam por bom tempo refluíram, dando passagem à onda eleitoral, mas não significa que tenham sido enterradas nas urnas. Ao contrário, a qualquer momento podem dar sinal de vida, se não de maneira estrondosa e impactante, ao menos de modo pontual, atacando aqui e ali as carências nas áreas de mobilidade urbana, moradia, degradação ambiental, falta d'água, assentamentos, demarcação de terras, etc. A propósito, a Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz acaba de identificar 490 pontos de tensão no País, nas áreas urbanas e rurais de todos os Estados. Essas bombas-relógio deverão ser desarmadas pelos chefes de Poder que governarão o País nos próximos quatro anos, sob pena de vermos vulcões jorrando lava aqui e ali.

As massas aguardam apenas o momento adequado para disparar sua munição. Ou, pelo alfabeto de Elias Canetti no clássico Massa e Poder, para jogar sua descarga, fenômeno em que ele descreve os componentes das turbas como pessoas iguais, unidas e em uníssono usando a força para obter, de quem detém as rédeas do poder, soluções para os problemas. Quando as demandas chegam ao pico, em decorrência de carências que se tornam agudas - como a escassez de água, o disparo da inflação, o aumento do preço da cesta básica, o esgotamento dos meios de transporte urbano -, as massas tendem a expandir sua densidade e procurar um direcionamento. Se suas metas não forem atendidas, não se extinguem, podem se recolher momentaneamente para, mais adiante, voltarem com maior ímpeto ao palco das pressões. Pelo visto, o ânimo das massas passa ao largo da sensibilidade dos governantes - não se viram até agora obras de vulto ou investimentos de porte para desobstruir os gargalos que têm originado as manifestações de rua nas grandes cidades e nas áreas rurais; e também não veremos um 2015 pacificado.

As camadas tectônicas da política ainda não se acomodaram no território dividido pelo voto. E é pouco provável que se ajustem no curto prazo, até porque os exércitos dos dois lados, alinhados durante a sangrenta batalha eleitoral, continuam a disparar seus canhões pelas redes sociais, atirando a torto e a direito, usando munição pesada dos anos de chumbo, no caso, apelos radicais pela volta dos militares, ou exageros como palavras de ordem pelo impeachment da mandatária reeleita.

O debate faz bem à democracia, mas o discurso político, parta de onde partir, mesmo ancorado na animosidade, há de se regrar pelo império da lei e da ordem. Essa é a direção que se enxerga da fala do candidato tucano derrotado, indício de que a oposição tende a desempenhar seu papel sem extrapolar o limite do bom senso. Da candidata reeleita já se ouviu a peroração com foco no diálogo. Resta esforçar-se para que a militância petista, vestindo a roupa de milícia disposta a usar armas de grosso calibre, se convença de que o acirramento de ânimos não é a melhor estratégia.

Ao Congresso Nacional cabe uma releitura do País que saiu das urnas, com ênfase ao clamor de grupos e regiões, sem procurar protelar a agenda das reformas, particularmente a que lhe diz mais respeito, a reforma política. Pouco adianta olhar para o retrovisor e perder tempo com a querela verbal do pleito. Os partidos urge chegarem a um mínimo de consenso em torno de pontos centrais para a mudança dos padrões da política. Não é possível que os atores não percebam que a sociedade anda a passos geométricos enquanto a esfera representativa arrasta os pés em compasso aritmético. Ou será que não enxergam a possibilidade de um ciclo legislativo tumultuado, com os corredores e salões das Casas congressuais ocupados pelos movimentos organizados? O País não suporta conviver com a postergação de medidas de correção de rumos.

Senhores políticos de todos os partidos, afastem tal risco. Senhores do PT, tenham cuidado com a ideia de construir um "Brasil democrático-popular", eis que a argamassa a ser usada nesse empreendimento - revolução cultural, luta de classes, revisão da Lei da Anistia, reforma e desmilitarização das Polícias Militares, entre outras medidas avocadas na nota da Comissão Executiva do PT, semana passada - pode fazer desabar a construção. A convocação para a militância acorrer às ruas é saudável quando a causa for a defesa do Estado de Direito. Nossa Constituição estabelece os meios para a democracia direta - plebiscito, referendo e projetos de lei de iniciativa popular. A criação de um amontoado de instâncias populares com essa finalidade poderá descambar no caos. E um controle social da mídia (seja lá o que for isso) tem jeitinho de disfarce para censura. Ou nossa democracia representativa está exaurida?

Muita calma com o andor. Lembrem-se da observação de Thomas Hobbes, ante a moldura de uma sociedade que se defronta com horizontes embaçados pela fumaça de incêndios prolongados: "Nesse estágio em que nada mais se vê e se apresenta, o trunfo é paus".

Longe de nós mudança na base do "pé na porta".

*Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político e de comunicação. Twitter: @Gaudtorquato 

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