A importância da credibilidade

Pode-se governar sem popularidade, mas não se pode governar sem credibilidade. Essa sábia advertência, feita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, deveria ser anotada com muita atenção pela presidente Dilma Rousseff, caso queira superar a imensa crise em que ela mesma mergulhou seu governo e que ameaça levar consigo todo o País.

O Estado de S. Paulo

15 Maio 2015 | 03h00

Para angariar a simpatia popular, base do projeto de poder lulopetista, a administração de Dilma passou o primeiro mandato recorrendo sistematicamente à malandragem fiscal, para esconder a gastança irracional, e ao populismo barato, para pescar votos de eleitores incautos. No entanto, o resultado desse esforço, todos podem ver, tem sido o exato oposto. Temos um governo fraco, impopular e, o pior de tudo, com escassa credibilidade, que só se mantém graças a um ou dois ministros que Dilma teve de engolir e que a duras penas estão tentando corrigir os inúmeros erros econômicos de sua lavra.

Em sua declaração, feita na última terça-feira ao receber um prêmio da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, em Nova York, FHC não citou nomes ou partidos, mas lançou uma dura crítica à irresponsabilidade fiscal do atual governo, fazendo uma clara defesa do bom uso do dinheiro público como condição incontornável da recuperação da confiança no Brasil.

No mesmo dia, por coincidência, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou um estudo sobre o Brasil em que comenta a “erosão da credibilidade das diretrizes econômicas, em razão da persistente deterioração dos resultados fiscais e da inflação acima da meta”. O desafio da atual equipe econômica, diz o FMI, é justamente, em primeiro lugar, “restaurar a credibilidade e reforçar a confiança nas decisões econômicas”.

Os agentes econômicos dos quais depende a recuperação brasileira, portanto, ainda esperam sinais mais claros de que podem confiar nos compromissos de um governo que se notabilizou por prometer o paraíso e entregar, na melhor das hipóteses, o purgatório. O resultado imediato disso é a crescente dificuldade de Dilma para mobilizar o Congresso e a opinião pública em torno do necessário ajuste nas contas públicas, especialmente porque o discurso de responsabilidade fiscal não fica bem quando pronunciado por uma governante que passou anos a demonizar aqueles que defendem a prudência na gestão econômica. Como salientou FHC, querer o rigor dos orçamentos “passou a ser visto como coisa reacionária” graças ao lulopetismo.

FHC tratou de lembrar que o controle firme das contas públicas é a base sobre a qual se assentou o controle da inflação e, portanto, a estabilidade da economia brasileira. As privatizações, as reformas e o enxugamento da máquina do Estado, promovidos no início dos anos 90, eram a precondição para tirar o Brasil do isolamento e permitir que o País se associasse ao mercado global. “A luta contra a inflação era mais do que um objetivo isolado. Era uma tentativa de colocar o Brasil em compasso com o mundo contemporâneo”, disse FHC, acrescentando que o desprezo pelo setor privado é um “arcaísmo” que se deve não a alguma ideologia progressista, mas sim a “atraso cultural”.

Esse arcaísmo define a natureza do lulopetismo. Na primeira oportunidade que teve, como lembrou FHC, o governo do PT deu “marcha à ré” nos avanços a duras penas conquistados, ao transformar em política permanente o que era para ser apenas um conjunto de medidas temporárias para enfrentar a grande crise mundial de 2008 e 2009. “Paulatinamente fomos voltando à expansão sem freios do setor estatal, ao descaso com as contas públicas, aos projetos megalômanos que já haviam caracterizado alguns governos do passado”, disse o ex-presidente.

No intervalo de alguns poucos anos, porém, “o castelo de cartas desfez-se ao sopro da realidade”. E, para FHC, todo o esforço das gerações passadas para construir a credibilidade do País, base do progresso econômico, parece agora “desfazer-se no ar”. Restaurar a disciplina nos gastos públicos não é, portanto, uma questão de escolha, e sim um imperativo, para preservar conquistas que não são deste ou daquele partido ou governante, mas do País.

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